O NOME DELA É SABINE:


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Original: Elle s’appelle Sabine
País: França
Direção: Sandrine Bonnaire
Elenco: Documentário
Duração: 85 min.
Estréia: 28/08/2009
Ano: 2008


Belo uso das imagens de arquivo.


Autor: Cid Nader

Eis um documentário que pode nos levar a discutir até que ponto o que realmente ético nesse segmento, o que é sensacionalismo e banalização e o que é sinceridade; deve deixar algumas questões nas nossas cabeças a respeito de aproveitamento indevido da imagem alheia, e o quanto é justo ou não expor seres ineptos à saga da curiosidade maior – já que são imagens levadas a uma tela de cinema, de grande e indiscriminado poder numérico de atenção.

Sandrine Bonnaire – uma das mais lindas e carismáticas atrizes francesas – entendeu exercer pela primeira vez o ofício dos que se põe por trás das câmeras, ordenando, mandando, exigindo e determinando, através de uma incursão documental. Resolveu ser interessante começar essa jornada de diretora mostrando o mundo dos autistas. Mais especificamente ainda, resolveu expor sua imagem, Sabine, de 38 anos, frente às suas lentes e à nossa curiosidade. Grande desafio a ser transposto esse, já que, ale, de desvendar e desvelar seres que não podem de maneira mais organizada impedir tal situação – se o quisessem -, o faz utilizando as imagens de alguém tão próximo. Já inicio com uma questão: é possível e humanamente justa tal exposição? A resposta deveria vir invocando a liberdade de manifestação, talvez, com o aval de se estar contando situações de interesse público, pois é colocada – mais especificamente nesse trabalho – como um questionamento sobre a soberania advinda do "conhecimento" médico sobre assuntos nos quais somos ignorantes, que podem nos afetar ou aos nossos, num futuro (até por conta de atitudes tomadas que possibilitam terem sido de caráter equivocado). Sabine teria sido afetada por atitudes médicas erradas, segundo conclusões – aí, nesse caso, absolutamente leigas – de Sandrine.

Um fato que me chocou bastante e me fez questionar inicialmente tal projeto, foi o rumo perseguido pela atriz na maneira de tentar revelar seu drama e o de sua família quanto à situação de Sabine – daí a razão de eu questionar acima se é justo expor tais seres, sem que eles possam se opor, diante da possibilidade de o assunto perder facilmente o caráter "informativo" para transformar-se numa espécie de catarse e expiação. Durante todo o documentário, a câmera continua gravando a repetição lamentosa de Sabine diante da possibilidade de uma breve partida de Sandrine. A imagem da "desproteção" que emana do medo da separação. Talvez devesse ter sido resguardada – ao menos um pouco, ao menos com a não insistente repetição da súplica – a figura da "apiedação" pública forçada; talvez devesse ter sido evitado se fazer notar tão ostensivamente o quanto a imagem e a presença da irmã/diretora/atriz é de fato importante para um ser desprotegido, que se viu isolado por um tempo de sua vida de tal contato. Talvez.

Mas, por outro lado, a exposição integral e ostensiva de Sabine – não omitidos seus momentos de reação nervosa e agressiva, ou seus momentos de teimosia, ou de prazer diante de uma refeição mais calórica, - também poderia ser entendido como a função desejada e fria (distante) que se espera de um documentário e de dum documentarista. Se compreendido assim, o papel desempenhado por Sandrine nesses momentos de captação, e nos subseqüentes de edição, a creditam a um futuro dos mais esperançosos. Faria com que eu passasse a entender que minha reação inicial que a despejava no poço dos exploradores e aproveitadores de situações – ainda mais em se tratando de uma irmã, a "explorada" – foi um equívoco surgido junto com a complexidade do tema a ser abordado. Talvez.

Mas não é de se jogar fora, realmente, a sensibilidade no uso das imagens de arquivo. Com belas cenas de filmes familiares – na praia, tocando piando, no avião, nos Estados Unidos (América) -; fato nítido, que se vê facilitado por se notar ser a família delas de recursos. As costuras desses momentos são bastante bem adequadas, e dão ao documentário aquele algo a mais de necessário, que faz com que trabalhos do gênero não fiquem capengas e dependentes demais de via única de elucidação. São alguns belos momentos, e que se fazem mais pujantes quando notamos o quão bela era Sabine era quando jovem; e também pujante, porque já se notava, por trás dessa beleza, no modo de olhar, alguém que não havia sido bafejado pela sorte da "normalidade" mental. Se quisermos olhar o trabalho com um distanciamento "budista", talvez não necessite tantos questionamentos, que surgirão, sobre limites, ética, aproveitamento ou beleza. Talvez.

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