ANTICRISTO:


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Original: Antichrist
País: Din/Ale/Sue/Ita
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Duração: 109 min.
Estréia: 28/08/2009
Ano: 2009


A mulher é o horror?


Autor: Laura Cánepa

Não há dúvida de que Lars Von Trier é um diretor de cinema muito competente. Afinal, se os espectadores se dispuserem a participar dos seus jogos, Trier os leva para onde quiser. Pena que esse caminho chegue, na maioria das vezes, a lugares tão detestáveis.

Anticristo, seu longa mais recente e tão falado no último Festival de Cannes, é uma obra de horror que parte de uma premissa interessante. Com ela, Trier retorna às suas origens televisivas, quando, nos anos 1990, dirigiu, para a TV dinamarquesa, o seriado "Riget" (The Kingdom), uma obra perturbadora sobre um hospital assombrado. Desta vez, porém, embora recorra ao tema médico, ele escolhe um cenário completamente diferente: uma enorme e densa floresta. Nela, uma mulher (Charlotte Gainsbourgh) traumatizada por ter deixado o filho pequeno morrer enquanto transava com o marido (William Dafoe), passa por um tratamento aplicado pelo próprio companheiro para recuperar-se do luto e retomar a vida.

Extremamente autoritário e arrogante, o marido, como uma espécie de alter-ego do próprio cineasta, passa a "dirigir" todos os movimentos da esposa, numa postura ao mesmo tempo fria e fascinada pelo sofrimento da mulher. Até esse momento, apesar do inegável esquematismo perceptível na relação “Homem/Razão" versus "Mulher/Emoção”, e da franca manipulação que alterna o acidente sofrido pela criança ao gozo dos pais, o filme consegue manter o interesse, sobretudo pela proximidade com que a câmera acompanha o trabalho irretocável dos atores e pela linda passagem do mundo claustrofóbico urbano para o ambiente selvagem que não parece menos assustador.

Mas, quando o casal e o filme desenvolvem essa nova dinâmica no ambiente selvagem no qual a mãe atormentada passa a dominar melhor a si mesma e ao espaço, é preciso que comece a prometida história de horror. E, então, a sensibilidade que o diretor vinha revelando desaparece, como se não fosse possível mantê-la no gênero.

Uma pena, para não chamar de incompetência. Daí em diante, o que se constrói é uma história de psicopata das mais óbvias, que derruba toda a trama de bruxaria e conto de fadas construída até então para substituí-la por uma grande metáfora psicanalítica sobre nossos instintos violentos e dominadores – mas que continuará centrada no esquema antiquíssimo no qual as mulheres estariam em contato direto com o que há de mais primitivo e incontrolável, enquanto os homens não poderiam mais do que sucumbir ao poder maléfico (e traiçoeiro) feminino.

Nesse sentido, as metáforas relativas à castração e à nostalgia uterina proliferam, juntamente com uma visão do sexo como um campo de guerra no qual o poder diabólico pertence às mulheres, que no final das contas não vão muito além de máquinas castradoras e selvagens.

Assim, ainda que o filme contenha momentos bastante intensos e promissores, como as sequências de hipnose, os apavorantes sons do chalé no mato e alguns belos efeitos de distorção fotográfica, o que resta é a velha tese que Trier (quase) sempre defende. Para ele, aparentemente, todas as mulheres do mundo se dividem em apenas três tipos básicos: as suicidas, as homicidas e as genocidas. Em todos os casos, resta muito pouco que os homens possam fazer, estejam eles com as melhores ou piores intenções.

Por mais que Anticristo ofereça arroubos de complexidade, surpreende que um discurso tão antigo ganhe espaço como grande descoberta, mesmo em círculos intelectuais já saturados pela leitura feminista do cinema – que, de maneira supostamente crítica, é revisitada por Trier com um olhar de muitos séculos atrás.

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