MANHÃ TRANSFIGURADA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sérgio de Assis Brasil
Elenco: Manuela do Monte, Rafael Sieg, Paulo Saldanha
Duração: 100 min.
Estréia: 21/08/2009
Ano: 2009


Se fosse um antiquário...


Autor: Cid Nader

Seria uma extrema maldade questionar a razão de um filme como Manhã Transfigurada, em detrimento de um tanto de outras produções que acabam não tendo tal possibilidade, nas telas de um país que não costuma abrir tanto espaço assim para as produções locais. Se compararmos a sua chance de estrear com alguns outros trabalho de tom muito mais marqueteiro que também têm ganhado seu quinhão nas salas de cinema (filmes de clubes de futebol, ou alguns documentários com cara de institucionais), nada mais justo que ele também tenha tal chance. Mas...

Dá dó falar muito mal de produções nacionais, que já sofrem, de cara, pela falta de investimento em suas produções, posteriormente, de um certo complexo de “vira-latas” que a maior do público mantém em relação às produções brasileiras. Existe até um consenso – sem que jamais tenha sido discutido ou imposto como norma, ou obrigatoriedade – interno, de que temos de batalhar para que nossas produções ganhem espaço dentro de um mundo bastante entupido de produções norte-americanas. Mas...

Um outro diz-que-diz muito pouco aberto à discussão ampla questiona um certo modelo de produções riograndenses (gaúchas): fechadas demais dentro de si mesmas, discutindo assuntos muito particulares ao estado de um modo muito próprio (muito carregado nos sotaques e pouco disposto a se abrir), quase que constituindo um núcleo à parte (sem que isso caracterize, necessariamente, coisa ruim), porém, de pouca qualidade, baseando-se me esquetes, esquemáticos, e nada inovadores. O questionamento vem com o intuito de tentar fazer perceber que não é possível, um estado que até tem tradição no mundo dos curtas, por exemplo, ser tão pouco “significativo” quando atrelado ao todo da cinematografia nacional. Não creio possível generalizar todas as produções (ou o grosso) de lá por baixo, apesar da qualidade inferior desse novo trabalho que aporta por aqui, dirigido por Sérgio de Assis Brasil. Mas...

A morte de seu diretor no ano de 2007 seria uma das razões para que o filme tenha sua chance nas telas grandes? Homenagem póstuma? Se sim, uma razão para que tal esteja acontecendo. Mas...

Tentando evitar ser muito radical ou andar com pernas alheias, o filme, protagonizado pela estonteantemente sensual Manuela do Monte lá com seus dezessete anos (o filme é de 2002), é baseado no romance homônimo do primo de Sérgio, Luiz Antonio de Assis Brasil, que fala de uma jovem, Camila, obrigada a se casar com um rico fazendeiro, para que seu pai de veja livre de dívidas. Passa-se na região de Santa Maria (RS), no final do século XIX, discute oligarquias e igreja. Mas...

“Mases” à parte, o resultado é pífio, parecendo querer ganhar boa parte de seu quinhão com a exuberância física de Manuela – há ela na tela, sendo filmada para dominá-la, tendo sua boca e seios destacados a cada instante como se o diretor não cresse nas outras possibilidades do filme. E, realmente, o filme não oferece muitas outras possibilidades do que o entretenimento possível ante a visão da atriz: as interpretações são até de causar vergonha; o formato é quadrado demais (comportado, com receio de ousadias), baseando-se bastante na ostentação dos objetos de época e dos ambientes da época (até uma rua inteira consegue ser mostrada); e a própria história literária na qual foi baseado não passa de um comparativo romântico, que busca uma retrospectiva dos costumes e das instâncias gaúchas antigas – mais um ponto que demonstra o quanto fica enfraquecida uma cinematografia (sem generalizar) que busca falar demais de si mesma, centrada somente no discurso interno, sem qualquer possibilidade de ligação externa.

O filme, infelizmente, acaba sendo até risível ao final: por seu desfecho, pelas soluções de cenas, pelo todo.

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