O FIM DA PICADA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Christian Saghaard
Elenco: Ricardo De Juono, Cláudia Juliana, Sandro Acrísio
Duração: 80 min.
Estréia: 21/08/2009
Ano: 2008


Bastante digno nas homenagens/referências pretendidas.


Autor: Cid Nader

O diretor de curtas, Christian Saghaard, entra no mundo dos longas explorando um filão de "estranheza" que é bastante executado dentro da cinematografia recente paulista. Tem um tanto de choque baseado no cinema "sujo" e assustador de Zé do Caixão - inclusive com uma participação especial dele (uma pontinha) -, com cenas de corpo sendo estuprado, sangue, mutilações, a evocação de um Satã feminino bastante "sexuado" e extremamente desagradável. Saindo das referências ao mestre de nosso cinema de terror, e continuando em outro estilo paulista de fazer cinema, há a denúncia social ao estilo de Sergio Bianchi, há mais homenagens explícitas a diretores e trabalhadores de cinema da capital paulista - pontas de Paulo Gregori (um professor e realizador de curtas local que faz cinema de extremo e choque), Carlos Reichenbach (outro diretor que está longe de transitar com sua obra entre os considerados diretores conformados), o fotógrafo Aluísio Raulino (talvez o maior do Brasil, mas nada "normal") e por aí afora.

Mas de dentro dessa proposta extremada resultou um filme irregular. Irregular pra baixo quando repete trechos musicais entre cortes específicos – como se para marcar cada segmento do filme como emoldurado por uma única música. Irregular pra cima quando opta em levar o personagem principal através do tempo, do interior para a cidade de São Paulo, vendendo sua alma ao diabo ("antigamente o diabo corria atrás do homem, hoje, o homem corre atrás do diabo), e evidencia a cidade através de gravuras e fotos antigas – um momento bastante bonito, aliás, raramente visto por aqui, porque raramente se pensa no Brasil quase urbano, de perto da virada do século, coisa bastante comum ao cinema americano, por exemplo. Irregular para baixo na aposta da cena final extremamente e assumidamente trash – desejo inequívoco da "sujeira" e do baixa resolução estética como opção, mas que me perece um tanto infantil.

Mas é pra cima, pela opção "brasileira" do Saci como o representante ressuscitado da pobreza, massacrado anteriormente pela violência do "Bandeirante", como o representante mitológico da "elite" paulistana – símbolos que não estão jogados lá por acaso. Pra cima também, e novamente, pela representação dessa "nova riqueza" destroçada, com sua cabeça decepada mas preocupada com o corpinho e com o "amassadinho no carro" – e aí o trash total está presente mas funcional, com razão, como um "upgrade". Contadas as favas, bastante válido como trabalho de experimentação e reverência. Os senões ficam por conta da estréia.

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