A TETA ASSUSTADA:


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Original: La Teta Asustada
País: Peru
Direção: Claudia Llosa
Elenco: Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís, Marino Ballón, Antolín Prieto
Duração: 95 min
Estréia: 21/08/2009
Ano: 2009


Claudia Llosa injeta talento no cinema latino-americano.


Autor: Fernando Oriente

A dor, o pavor sufocado que Fausta traz em sua figura provoca certo estranhamento durante a primeira metade de A Teta Assustada. A protagonista do filme da jovem diretora peruana Claudia Llosa é um tipo espectral, carrega dentro de si uma longa tradição de sofrimento, humilhação e desesperança que assola gerações de mulheres pobres e vitimas de abuso. Essa condição de subvida não existe só no Peru, é denominador comum em qualquer canto do planeta onde a miséria pré-determina a existência das pessoas. Mas o estranhamento que a presença de Fausta provoca é convertido, logo de início, em um dos mais fortes elementos que fazem deste longa peruano um dos bons filmes latino-americanos dessa década; ou seja, algo meio raro em um cinematografia dominada por nomes suspeitos como Daniel Burman, Iñárritu, Fernando Meirelles e companhia limitada (logicamente não estamos falando de grandes autores da nova geração como Lucrecia Martel, Karim Ainouz, Beto Brant e até Carlos Reygadas, entre outros). Voltando ao filme peruano, é notável como Claudia Llosa consegue elevar a condição inicial de sua personagem e a transforma em um tipo simbólico (ao mesmo tempo em que é fincada solidamente em uma poderosa representação do real) de toda uma situação que envolve o árido espaço de sobrevivência humana que a diretora filma.

Fausta surge em cena como um ser enfermo. Sua patologia aparente é o medo e o sofrimento que sua mãe lhe transmitiu por meio do leite materno (situação que a levou a introduzir uma batata em sua vagina para impedir que sofra violações como a mãe). A amargura e a dor transmitidas foram potencializadas pela vida concreta, cuja aspereza fez de Fausta uma mulher amputada da remota possibilidade que ainda existe, nas pessoas que a cercam, em ser (relativamente) feliz. O medo da protagonista e sua prevenção em relação a qualquer tipo de contato humano não são frutos apenas da violência sofrida por sua mãe. O que faz da jovem um tipo tão frágil é, antes de tudo, sua condição social. O medo e a dor vêm da pobreza e das limitações materiais. A pessoa pobre nasce condenada a temer tudo e todos. Carrega um medo de viver. A desesperança é condição determinante; Fausta traz em sua figura os elementos de um papel no mundo que é imposto a todos de seu meio. A personagem e sua triste figura fazem parte do comentário cético que a cineasta tece sobre uma imensa parcela da população de seu país.

O grande mérito de Claudia Llosa é transformar seu discurso em ótimas imagens. A diretora mostra uma minuciosa preocupação na construção de cada plano, constituídos em sua grande maioria por tomadas estáticas em que a ação se desenvolve com a lentidão necessária para uma apreensão total do quadro pelo espectador. Os enquadramentos de Claudia são belíssimos e captam todo o potencial discursivo dos ambientes que filma. Existe a clara intenção em recriar uma realidade em cima de sólidos elementos de autenticidade. Os tipos entram e saem de campo constantemente, o que amplia a percepção do fora de quadro e alarga a extensão da pobreza física do espaço fílmico onde essas pessoas se “arrastam”. A favela onde Fausta e seus familiares vivem torna-se elemento narrativo. Esse cenário feio, seco e miserável reflete os estados de espírito da protagonista e daqueles que a cercam. Mesmo não tendo a tristeza estampada em seus semblantes como Fausta, os outros personagens do filme também são vítimas de sua condição social. Claudia ancora seu discurso visual em uma bem estruturada relação entre os tipos e o espaço em que agem. A cineasta filma com distanciamento patéticas festas de casamento, crianças se divertindo em um buraco cheio de água que serve como piscina e outras pequenas ações cotidianas que, por mais que tenham a intenção de transmitir uma normalidade para as pessoas envolvidas, não escondem as limitações que o peso da privação inflige nelas.

Não existe fetichização da pobreza nem sentimentalismo piegas nas imagens do longa. A falsa frieza com que Claudia registra as ações põe o foco de seu discurso no poder significante daquilo que o espectador vê. O real recriado nas cenas de “A Teta Assustada” já traz em sua própria constituição imagética todos os comentários da diretora, que não precisa recorrer a recursos formais falsificadores para construir seu drama, nem apelar para modismos como tantos outros diretores fazem para falar sobre realidade social. Apesar da crueza do que filma, Claudia introduz muitos elementos líricos em seu filme, além de oferecer a sua protagonista uma possibilidade de esperança no final. Esse conflito entre a desilusão e a possibilidade de redenção faz do longa uma dolorosa afirmação da vida, sem em nenhum momento desviar ou alienar o público da condenação que a pobreza impõe as pessoas. A realidade de sofrimento (bem como os possíveis lampejos de consolo existencial) é traduzida pela cineasta no sofisticado trato dos efeitos do tempo nos tipos. Os gestos, expressões e, principalmente, o discurso contido nos olhares dos personagens são carregados daquele tempo vivido que condiciona a existência presente. O passado, não só de Fausta, mas de todos os que circulam à sua volta, está esculpido em seus semblantes e pré-condiciona suas ações, além de limitar suas expectativas em relação a todo o porvir.

A Teta Assustada não se retém apenas como registro da condição de vida dos excluídos do capitalismo. Existe no filme de Claudia Llosa uma pertinente abordagem de relação de classes. Fausta, para conseguir rapidamente dinheiro para enterrar a mãe em sua cidade natal, aceita um emprego como empregada doméstica na casa de uma rica pianista. Ao contrário dos lugares comuns e da obviedade como a maioria dos diretores aborda a luta de classes, Claudia constrói a relação de Fausta com a patroa de forma sutil, o que conduz o drama a uma relação não-maniqueísta entre as duas. A cineasta faz com que espectador simpatize com a rica e solitária mulher até o golpe inevitável que essa desfere contra Fausta. Golpe esse que desnuda toda crueldade dos mecanismos da inter-relação entre dominados e dominadores. A patroa não apenas trai e abandona sua empregada, mas também lhe rouba o lirismo ao apropriar-se de suas canções, que para a jovem são a única forma de manifestar os tormentos da alma e de enfrentar o desconforto de viver. A Teta Assustada, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2009, consolida Claudia Llosa como uma das mais promissoras realizadoras de cinema da América Latina.

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