TEMPOS DE PAZ:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Daniel Filho
Elenco: Tony Ramos, Daniel Filho, Dan Stulbach, Louise Cardoso
Duração: 82 min.
Estréia: 14/08/2009
Ano: 2009


O que se salva é o texto de Bosco Brasil.


Autor: Marcelo Miranda.

Daniel Filho vem tentando a média de um filme por ano e sempre variando entre um trabalho “sério” e um trabalho cômico. Este 2009 vai marcar a chegada de duas produções sob sua direção, obviamente uma comédia (Se Eu Fosse Você 2) e um drama, Tempos de Paz, exibido no encerramento do II Festival Paulínia de Cinema. E Daniel Filho, talvez para dar credibilidade a si mesmo enquanto artista criador, leva ao pé da letra a noção de que deve entregar um filme “sério”. Tempos de Paz, fora alguns momentos de humor proporcionados pelo choque cultural entre os dois protagonistas, busca a cada fotograma soar importante, relevante e admirável, numa clara tentativa do cineasta de se garantir perante aqueles que insistem em fazer joça de seu jeito algo atabalhoado de dirigir.

Aqui, estamos no território da recriação teatral. A matéria-prima do filme – a peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil – logo nos primeiros minutos. O que se verá é o embate solitário entre dois homens: um oficial de controle de imigrantes no Brasil imediatamente pós-Segunda Guerra Mundial (Tony Ramos) e um ator polonês que vem tentar ganhar a vida no país (Dan Stulbach). Cada um tem motivos particulares para vencer um ao outro, num embate que toma praticamente todo o tempo da sucinta projeção (80 minutos). O filme consiste basicamente no que poderíamos chamar de “duelo de interpretações”, em que Ramos e Stulbach parecem disputar quem é o mais expressivo diante dos papéis que defendem (alguém poderia falar em qual seria o mais afetado).

Na ânsia por se manter fiel à peça, Daniel Filho deixa que a ação ocorra em praticamente um único cenário. É então que se percebe suas limitações como encenador de cinema. A câmera parece pouco à vontade para transitar naquele espaço pré-definido, o que faz com que o filme recorra menos ao uso da cenografia como fator de expressividade do que à montagem de plano e contraplano. O galpão onde ocorre a ação, com todas as potencialidades espaciais, serve a Daniel Filho como uma sala de jantar ou café da manhã serviria a um diálogo de telenovela – e nem se está falando, aqui, das batidas relações entre as linguagens de cinema e televisão, mas do pouco proveito que o cineasta faz daquilo que ele mesmo lança bases no filme. Isso é bastante sentido no miolo, quando o corta-corta deixa de nos envolver e passa a ser apenas algo aborrecido – ainda que haja um ou outro lampejo de “liberdade” dos atores e do espaço diante da câmera.

Se Tempos de Paz ainda consegue prender a atenção, muito se deve ao texto poderoso de Bosco Brasil, que mescla questões políticas, históricas, afetivas e artísticas numa tensão claustrofóbica prestes a explodir. O grande mote da peça, ao fim, é a exaltação da figura do ator e da força e importância de sua representação. Ironicamente, Tempos de Paz, com toda a sua caretice cênica, cria uma ponte com o impressionante e inovador Moscou, dirigido pelo mestre Eduardo Coutinho.

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