CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA:


Fonte: [+] [-]
Original: The Girlfriend Experience,
País: EUA
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Sacha Grey, Chris Santos, Peter Zizzo, Timothy J. Cox, Timothy Davis, Jeff Grossman, Ted Jessup
Duração: 78 min.
Estréia: 14/08/2009
Ano: 2008


Sasha Grey!


Autor: Fernando Oriente

Antes de tudo é importante deixar claro uma coisa: não interessa se Sasha Grey é conhecida por ser atriz de filmes pornôs ou por ser uma caridosa missionária. O que importa é que a jovem atriz é o que de melhor existe em “Confissões de uma Garota de Programa”, e isso não é pouco, já que o novo longa de Steven Soderbergh tem muitos predicados. Tratada com um carinho especial pela câmera do diretor, Sasha constrói um tipo que vai conquistando o espectador ao longo da projeção e, ao mesmo tempo em que sua personagem vai ganhando texturas, a beleza e as nuances de personalidade do tipo construído por Sasha se solidificam e fazem dela o centro luminoso por onde as ações fragmentadas e descontínuas que compõem o filme transitam de forma cíclica.

Steven Soderbergh é um cineasta competente que sabe filmar. Tanto em seus projetos mais pessoais como esse Confissões de uma Garota de Programa como nas grandes produções (onze, doze e treze homens e seus muitos segredos) que dirige, fica nítido como ele constrói bem os planos, posicionando a câmera com correção e compondo a mise-en-scène de cada cena de forma sólida. Seu estilo, por mais que tenha uma notada influência do cinema europeu moderno, é mais centrado na escola clássica do cinema norte-americano, em que a força da narrativa (por mais fragmentada e tensionada para o sensorial que seja) sempre se impõe. O que acontece com seus personagens é a força motora de seu cinema; mas as conseqüências emocionais internas em cada tipo acabam sendo o contraponto que adensa as experiências vividas nas ações.

Confissões de uma Garota de Programa traz Sasha Grey como Chelsea, uma prostituta de luxo que transita pela Nova Iorque sofisticada onde habitam seus ricos clientes. Esse mundo de luxo que a moça frequenta é o cenário ideal para Soderbergh tecer seus comentários sobre o mundo do dinheiro e sobre a volatilidade dos capitais fictícios que sustentam esse universo de grandes fortunas e seus agentes. O filme se passa em outubro de 2008 e a crise econômica e as eleições que levariam Obama à Casa Branca são os assuntos principais das pessoas que cercam Chelsea. Ela é apenas mais um bem de consumo para aqueles que a contratam e a usam. É mais uma commoditie a passar de mão em mão entre executivos e figuras de destaque no mundo das grandes corporações. O longa tem o mérito de não fazer dessa situação algo piegas em que se denuncia a crueldade do mundo com argumentos humanistas de butique. A prostituta que vemos na tela não é constrangida pelo roteiro a servir de simulacro da vítima inocente das vicissitudes do mundo. Ela é apenas mais uma de tantas mulheres que ganham muito dinheiro suprindo os desejos e fantasias daqueles que podem se dar ao luxo (e não se incomodar com isso) de possuir mecanicamente uma mulher tão bonita. Ao não mostrar o sexo entre a garota de programa e seus clientes, Soderbergh torna mais intensa a relação distanciada e a impessoalidade com que pessoas consomem e são consumidas no universo do capitalismo total. A frieza e o distanciamento são as opções de registro que Soderbergh usa ao longo de todo o filme.

O que torna a personagem mais interessante é o fato de Chelsea saber o tempo todo seu valor de mercadoria e se posicionar como tal, valorizando cada detalhe em sua aparência (como na especial atenção que dá as roupas e acessórios que usa) e em suas ações para que seja sempre valorizada no mercado. Sasha Grey consegue compor um tipo que, ao mesmo tempo em que transmite a frieza e a competência necessárias para ser um artigo de luxo disputado por seus consumidores, deixa transparecer pela sua figura elementos de fragilidade e insegurança em que o seu lado humano escorre pelas arestas da embalagem que construiu para ser uma mulher-mercadoria de alto valor. A força do discurso emocional de Chelsea está no olhar de Sasha Grey. A câmera fechada em seu rosto apreende aquilo que ela sente, mas gostaria de deixar reprimido. Seja em seu relacionamento com o namorado, na humilhação que lhe é imposta por um “crítico de prostitutas” ou na competitividade que surge com uma nova garota de programa que chega para disputar seus clientes. Os sentimentos brotam sempre através dos lindos olhos de Sasha Grey.

A frieza do universo que retrata ecoa no tratamento que Soderbergh dá as imagens de seu filme. O uso freqüente da luz subexposta se alterna com cenas em que uma luminosidade estourada dá um tom de brancura asséptica às situações encenadas. Esse processo promove uma interessante alternância entre ambientes muito escuros (em que o tratamento de foco embaça elementos do quadro contrapondo-os com uma tímida nitidez que surge em diferentes pontos do mesmo quadro graças à profundidade de campo) e outros claros demais. Essa variação no registro da luz faz com que os espaços onde as ações acontecem sejam reflexos da frieza e do distanciamento calculado com que os personagens se inter-relacionam. Esses ambientes são retratados como são, não há a necessidade de se introduzir luminosidade para que sejam mais visíveis; eles são percebidos pelo espectador da maneira como existem. Nas cenas em que Chelsea não está presente, o caráter impessoal dessas relações é ainda mais intenso, como na viagem de avião que executivos fazem a Las Vegas ou nas passagens em que o namorado da protagonista também tenta vender seus serviços de peronal trainer para faturar em cima do aprimoramento do corpo como mercadoria. Quando Chelsea está em cena é o flou em seu rosto (presente em algumas sequencias importantes) que serve para representar a forma embaçada com que é percebida pelos que a circundam.

Outra boa opção de Soderbergh está na escolha pela decupagem fragmentada e não-linear, em que o aspecto cíclico da rotina de Chelsea ganha estopo com a fluência total do filme. Composto de fragmentos da vida da personagem durante poucos dias, o longa “cola” situações que se agrupam sem um desenrolar cronológico. O vai e vêm dos tipos, as reentradas das mesmas cenas, em que diálogos são retomados e ações concluídas, dão uma dimensão circular e quebrada na qual sente-se o aprisionamento da personagem em um pequeno microcosmo do universo do grande capitalismo de consumo. Os clientes de Chelsea discutem finanças, a crise econômica e dão conselhos para a moça sobre onde e em que aplicar seu capital. Ela é mais um elemento desse mundo em que grandes fortunas circulam e onde até as peças mais descartáveis e de rápida reposição como ela tem uma pequena fatia e uma discreta oportunidade de brincar no jogo da ciranda financeira. Soderbergh aborda um universo macroeconômico e seus desenlaces focando sua câmera em uma pequena representante da base dessa estrutura gigantesca. É uma forma inteligente de se falar sobre algo tão incerto e de acesso tão restrito. A volatilidade do dinheiro, que ninguém sabe onde está, é sentida na volatilidade da existência de Chelsea. Seu choro reprimido ao final do filme é logo sucedido pela retomada cíclica de suas ações agendadas, em que sua presença surge e desaparece na vida daqueles que a consomem. O que não desaparece é Sasha Grey e sua linda e melancólica figura.

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