O ÚLTIMO MITTERRAND:


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Original: Le Promeneur du Champ de Mars
País: França
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Michel Bouquet, Jalil Lespert e Philippe Fretun.
Duração: 116
Estréia: 11/11/2005
Ano: 2005


"O Último Mitterrand" - para francês ver .


Autor: Cid Nader

Não consigo entender essa francofilia que domina setores inteiros do mundo das artes em São Paulo. No nosso mundinho do cinema chega a ter aspectos "religiosos" essa adoração que é dedicada à sétima arte da terra de Asterix. "Tudo é bom", "tudo é profundo", "como não gostou?" - acompanhado de um sorriso piedoso.

"O Último Mitterrand", dirigido pot Robert Guédiguian, longe de ser um mau filme, carrega o peso, cá, dos excessivos "u-lá-lá!" pronunciados por quem o viu durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Pecado: o excesso de expectativa, mesmo sabendo da "franca" origem dos elogios, é um mal que pode acometer cinéfilos novatos e desprevinidos.
Segundo pecado: como pode, um assunto tão francês, tão interno, que não se abre para o mundo - aliás um costume francês, não exercitado nesse caso - ganhar tamanha relevância, emocionar tanto às pessoas, a não ser aquelas que imaginam ser a antena da Tv Globo a Torre Eiffel - ainda mais que sob ela podem agora comer croissants da mais pura origem.

Fato: a França passa - nesses momentos atuais, novembro de 2005 - por um dos mais dramáticos momentos internos do pós II Guerra Mundial, com a explosão violenta - já prenunciada há tempos, inclusive pelo próprio cinema mais "engajado" francês - de parte segregada de sua sociedade multicultural e multiracial - na designação e nos desejos sinceros de grande fatia de um povo tão exageradamente racional, quanto humanista. Os descendentes do norte da África islâmico estão botando para fora os seus recalques e rancores, suas falta de oportunidades, sua miséria - em termos de primeiro mundo, é lógico - e seu desejo simples de serem franceses. De maneira violenta e irracional - aparentemente, pois não sou eu que passo por tais situações e não serei eu a definir quanto "ao melhor modo" e o melhor momento de extravasar ódios - acenderam o rastilho, que por enquanto queima carros, já cruzou fronteiras, mas ainda não atingiu o barril de pólvora.

Aliás, ouvindo dia desses, na rádio, um correspondente brasileiro que vive já há décadas em Paris, causou-me espanto o teor de sua preocupação - que se fazia voz dos órgãos de imprensa de França - que mais do que com a situação em si, bastante angustiante, recaia sobre como tem sido relatada pela imprensa norte-americana tal situação de caos, e indignado com os "exageros" dos noticiários "yankees" cobrava deles que se preocupassem com os seus desabrigados nas regiões atingidas por recentes furacões! Isso é fechar os olhos e ouvidos a um "visionarismo" de François Mitterrand - relatado no filme - quando antecipa: "durante os meus 14 anos de governo não tivemos insurreições sociais ou protestos gerados por condições de desigualdade".

Ficção: o diretor Robert Guédiguian, que tem como centro de inspiração a região de Marselha, com filmes como "Marius e Jeannette" ou "A Cidade Está Tranqüila", descentraliza a sua maneira habitual de conceber o cinema e direciona-a ao centro do poder, à história dos últimos dias do grande estadista de esquerda - combalido pelo câncer - que no filme é relatada a um jornalista, Antoine Moreau (Jalil Lespert), jovem esquerdista que vai em busca de um "verdadeiro" Mitterrand - interpretado de modo hábil, fragilizado e convincente por Michel Bouquet -, acusado pela extrema-esquerda de ter se rendido aos deveres do poder, num prejuízo às causas verdadeiramente sociais, e acusado pelos judeus de não ter aderido à resistência - II Guerra Mundial - no tempo que diz oficialmente o ter feito, o que teria, também, comprometido uma reação francesa libertária ao governo adesista e rendido de Vichy.

Como disse no início, o filme relata situaçõa bastante intrínseca aos franceses, que pode gerar curiosidade nos espectadores brasileiros, mas não imagino como possa arrebatar corações e mentes - a não ser no caso de nossos diletos francófilos.

Robert Guédiguian até hoje vinha exercitando uma obra em que os personagens centrais são os desvalidos, os mais excluídos do padrão de excelência que pressupõe a citação do nome França. Acerta no citado "Marius e Jeannette", mas calca exageradamente a mão em "A Cidade Está Tranqüila" - só para citar esses dois exemplos. Agora volta as câmeras para o outro lado, para o poder. Filma com carinho "Mitterrand" que, como peça de arte tem narrativa bastante ajustada mas também bastante comum. Usa, para conduzir a trama, uma narração em "off", que soa recurso requentado.

Tem força, e vale ser conferido, pelas atuações bem compostas - um jornalista indeciso e atormentado, por situações pessoais e pelo encargo oficial de peso; um estadista nos seus últimos dias, querendo se mostrar de maneira mais humana e deixar bem evidenciadas suas atitudes em momentos críticos.
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