SE NADA MAIS DER CERTO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: José Eduardo Belmonte
Elenco: Cauã Reymond, Caroline Abras, João Miguel, Luiza Mariane, Milhem Cortaz.
Duração: 120 min.
Estréia: 14/08/2009
Ano: 2008


As multiplicidades (ou não) de Belmonte.


Autor: Cid Nader

José Eduardo Belmonte parece estar querendo constituir carreira autoral utilizando-se do, e embrenhando-se pelo, mundo das texturas. Tem sido assim: foi assim em seu maior sucesso, "A Concepção" ( 2005), havia sido assim em uma quantidade um tanto diminuída em "Subterrâneos" (2003), e agora ganha certeza por conta de Se Nada Mais Der Certo

1) Belmonte e o mundo das texturas: nesse filme, o apuro estético buscado pelo diretor chega a requintes quase inimagináveis, e entrega uma verdadeira obsessão dele pelo assunto. Durante todo o transcorrer da história o que mais se percebe ostensivamente – e o que mais empresta qualidade superior ao trabalho – são as técnicas imaginadas e utilizadas para a explicitação de um mundo de texturas, e dos meios utilizados para obtê-las. Primeiro, a concretização se dá pelo jogo técnico com as ferramentas de captação, através de posicionamentos das lentes e incidência específicas das diversas luzes, (artificiais noturnas a céu aberto e em ambientes fechados; natural, via sol, via nebulosidade) sobre elas, a gama de espectros se multiplicando por vários setores e possibilitando que momentos ganhem especificidades ditadas pelo resultado – há os momentos em que a luz chapada cria texturas específicas no cenário mal definido que está preenchido, chapadamente, pelas figuras dos personagens; há momentos em a luz difusa vinda de um farol, ou de um poste, atravessando gotas de água de chuva, completam climas de tristeza ou insegurança; há os momentos em que a opção pela captação diferenciada (obtida pela compensação inexata entre película utilizada e luz oferecida pelo ambiente, ou obturadores de câmeras digitais programados para outras potências, ou diafragmas ajeitados "na contramão") granula a imagem enchendo a tela de outros modelos de texturizações.

Segundo, há os resultados obtidos pela utilização física de elementos que possibilitam outros momentos do filme, nesse aspecto de virtuosismo obsessivo/autoral. Há elementos táteis, concretos, pegáveis, que constroem cenas e, por sua vez, preenchem de texturas outros momentos, substituindo as texturas espectrais. Numa bela - e aparentemente sem razão de ser – cena, pedaços de seda coloridos são encontrados pelos personagens no meio do nada e o contato de usas mãos e rostos com eles desenha na tela plasticidade afim com a intenção e busca estética do diretor. As madeiras do apartamento também são vagarosa e repetidamente perpassadas por pés e lentes, criando aquele clima de aconchego que um lar deveria emanar quando pacificado e tranqüilo. Num outro instante, cortinas vermelhas sopradas pelo vento também criam um clima necessário para determinado trecho. E, fica bastante nítido que texturizar a tela é caminho buscado e bem concretizado.

2) Belmonte e as bitolas: vou chamar de bitolas as diversas possibilidades mecânicas de câmeras e afins que José Eduardo também utiliza com variedade e imensidão em seus filmes. Essas possibilidades de captações por instrumentos variados, também parecem ser um jogo que lhe agrada, e como em "A Concepção" (se bem que aqui, aparentemente, com menos intensidade e diversidade), novamente se percebe que andamentos por vezes são ditados pelo modelo de captação de imagens utilizado. Há momentos de super-8 (?), muitos por digitais variados, e talvez algo em "película comum". O que acontece é que ocorrem variações de imagens reproduzidas, por capturação via ferramentas diversificadas e isto dificulta individualizar todos os momentos, mas também tanto dita boa parte do ritmo do filme, como o faz também o inconveniente da câmera na mão (que excede um tanto a mais a necessidade de sua utilização). Como o cinema do diretor transita por vias "moderninhas", fica até razoável a tentativa de dinâmica via câmera nervosa – até porque ele utiliza em muitos momentos tal recurso com qualidade. Só que em alguns outros, o incessante malabarismo com elas acaba sepultando a complexidade do resultado obtido pelas variações de bitolas e isso acaba tornando-se um pecado, um maculador da estética mecânica – a estética que obtém as texturas até que não sofre muito com isso.

3) Belmonte, suas músicas e suas histórias de ideais juvenis: mas o que faz mais padecer o cinema do diretor são suas histórias. Ele parece ser um idealista, um anti-instituições, um anti-regras, mas tanto em (novamente) "A Concepção", como em "Se Nada Mais Der Certo", os motes parecem ter saído da cabeça de um ser ainda imaturo e não completamente lúcido. Nesse filme a transformação dos personagens, as investidas, seu mergulho em outro mundo fora do padrão que exerciam enquanto "durangos e ferrados", soa mal e enfraquece bastante o inconformismo formalista. Não há similaridade de importância entre a essência e a forma – a essência aqui é bem mais enfraquecida e capenga. Para tentar compensar esse não muito a dizer, Belmonte se cerca de músicas e músicos meio à parte do padrão comum – isso dá um clima diferenciado ao seu filme e contribui para a velocidade narrativa muito mais do seu texto. Pode ser entendido tal artifício do investimento na música "desconhecida" como uma muleta para ajudar as histórias... Pode ser. Mas a conclusão, ao final, é que sua obra não conseguirá se sustentar sempre pela estética, ou pela busca musical. É necessário que ele desvencilhe mais.

Leia também: