BRUNO:


Fonte: [+] [-]
Original: Brüno
País: EUA
Direção: Dan Mazer
Elenco: Sacha Baron Cohen, Alice Evans, Trishelle Cannatella, Sandra Seeling.
Duração: 83 min.
Estréia: 14/08/2009
Ano: 2009


Sacha Baron Cohen, o politicamente correto.


Autor: Fernando Oriente

Desde que o “politicamente correto” virou tema de discussão no espaço público (lá por meados dos anos 90) existem basicamente duas correntes que se aproveitam do, digamos, “conceito”. Primeiro temos os que realmente levam essa balela a sério e fazem discursos moralistas e produzem produtos minuciosamente calculados para não agredirem ninguém (ou nada); além de sempre ancorarem tudo o que dizem e fazem em nobres “preceitos morais”. Por outro lado existem os que fazem de tudo para serem os mais politicamente incorretos possíveis. Esses, para chamarem atenção e faturarem, agridem deliberadamente tudo o que estiver a sua volta, cultuando o grotesco e abusando do escatológico. Com certeza, pessoas a serem levadas a sério não fazem parte de nenhum desses dois grupos, agem de forma livre e independente de regrinhas de conduta.

O comediante inglês Sacha Baron Cohen pode ser encarado como uma mega versão do mais calculado produto politicamente incorreto do showbiz. Tanto em “Borat”, longa de 2006 que projetou o ator mundialmente, quanto nesse novo “Bruno”, ele entra e sai de cena visando sempre causar desconforto aos moralistas e ofender a quem se incomoda com escatologias e grosserias visuais e sonoras. Essa postura agressiva o torna o ídolo dos que acham moralismo uma babaquice e não aguentam mais coleiras de conduta (no que certamente estão certos) e, por outro lado, provoca indignação nos defensores da correção política. De tanto se esforçar em agredir etnias, desrespeitar religiões e avacalhar opções sexuais, o que Cohen realmente produz é um discurso politicamente correto. Ao visar à indignação de alguns e o riso sádico de outros, o comediante está afirmando, de forma torta, o quanto o desrespeito é nocivo e o quão erradas são as atitudes de seus personagens. A pessoa que se irrita com o que vê apenas tem seus valores morais reafirmados por esse processo de negação. Aqueles que se esbaldam em gargalhadas estão no fundo encarando toda essa situação como espetáculo e, graças aos dispositivos típicos do cinema, isolam sua possível falta de ética e crueldade da ficção encenada, na qual podem se projetar livremente de maneira inocente, sem culpa ou remorso.

Dito isso, é importante deixar bem claro que Sacha Baron Cohen é realmente um comediante talentoso e seus filmes conseguem ser engraçados, garantindo sempre uma boa quantidade de situações hilárias. O ator parece não ter limites físicos para sua atuação, age de forma insana e parece não temer nada para alcançar a comicidade planejada. Sua postura faz com que incorpore os tipos de maneira alucinada, jogando o espectador em uma sequência ininterrupta de situações absurdas e, algumas vezes, originais. Em Bruno, longa assinado pelo mesmo diretor de “Borat”, Larry Charles, temos novamente um falso documentário em que a câmera acompanha de perto as aventuras de Cohen. Misturando passagens encenadas com sequencias em que o ator interage com tipos comuns desavisados do que está sendo filmado, o filme centra seu poder de artilharia no mundo da moda e das celebridades, além dos tão famosos projetos humanitários envolvendo causas nobres. Como todo filme construído em cima de sucessões de esquetes e piadas, o longa tem seus altos e baixos, alternando boas cenas com momentos sem graça.

Algumas soluções são interessantes, como o tratamento que o longa dá ao patético e ao absurdo da vida das estrelas e, principalmente, daqueles que sonham ser alguma coisa apenas saindo do anonimato. Como em seu filme anterior, o cenário da maioria das cenas é os Estado Unidos, país cuja cafonice e vulgaridade estéticas são conhecidas em quase todo o mundo. Logicamente não é da parte inteligente e criativa dos EUA que estamos falando, mas daquela cujo estilo de vida fútil vende seus modelos de consumismo débil por todos os lados. A “América Profunda”, representada por estados como o Alabama e o Arkansas, é o ambiente perfeito para Cohen ridicularizar a homofobia e os valores morais. Isso fica nítido na sequência, quase ao final do filme, em um ringue de vale-tudo; um melhores e mais engraçados momentos de Bruno. São em passagens como essas que vemos a capacidade cômica do ator, que não mede esforços para se jogar em situações grotescas para tirar delas sua graça anárquica. É um humor grosso, escatológico e sem nenhuma preocupação de refinamento, mas, sem dúvida, engraçado. De forma torta, o politicamente correto Sacha Baron Cohen faz o espectador rir sem esforço e ainda vende seu discurso crítico camuflado. Pontos para ele.

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