AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Portugal
Direção: Miguel Gomes
Elenco: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares.
Duração: 150 min.
Estréia: 14/08/2209
Ano: 2008


Vários filmes dentro de um filme.


Autor: Liciane Mamede

Aquele Querido Mês de Agosto foi uma agradável surpresa logo de início. O filme possui um frescor claramente sentido logo em suas primeiras cenas. As locações parecem familiares. Algo de “Veredas”, de João Cesar Monteiro, “Trás-os-Montes”, de António Reis e Margarida Cordeiro e “Acto da Primavera”, de Manoel de Oliveira. Na verdade, todos esses filmes têm em comum o fato de terem sido filmados na mesma região portuguesa, Trás-os-Montes e, muito embora, possuam enredos diferentes, contem diferentes histórias, há a mesma unicidade da experiência diante da paisagem das aldeias que resistem ao tempo. Todos eles parecem ser frutos de uma relação muito subjetiva com aquela paisagem, trazem o mesmo contexto sob o ponto de vista da experiência particular que ele pode proporcionar.

O filme de Miguel Gomes também denuncia sua ascendência genética, inconscientemente ou não, através da maneira com que inventa uma linguagem de acordo com as exigências de sua própria experiência, a favor dos personagens, do local, da história que quer contar. Neste sentido, seu parentesco com os filmes portugueses citados acima é ainda mais próximo. Ficção e documentário se misturam também em Acto da Primavera, Veredas. Mas ao mesmo tempo, essas são experiências que nada tem a ver com experimentações formais e sim com uma tentativa do cineasta de tentar confundir propositalmente seu olhar com a mise-en-scene que emerge do próprio local.

Aquele Querido Mês de Agosto é um filme de diferentes entradas, isto porque é um filme que contém vários filmes dentro de si. A princípio temos Miguel Gomes chegando com sua equipe à aldeia onde pretende rodar seu filme. Eles chegam abertos, querem desvelar um mundo pouco conhecido e, ao mesmo tempo, descobrir a que filme, afinal, querem dar vazão. Os personagens reais que habitam o local são um tema importante. As entrevistas, os modos de vida, tudo é o início de uma experiência antropológica que só culminará na segunda parte do filme, quando uma história ficcional toma forma. Depois da imersão na realidade do contexto que pretende retratar, Aquele Querido Mês de Agosto, enfim, sente-se à vontade para escolher a história que quer contar.

As meninas que protagonizarão as duas personagens principais aparecem, depois de mais ou menos 40 minutos de filme (e ainda em sua parte documental), pedindo uma participação no longa-metragem que será rodado. Depois de ganhar uma aposta com o diretor, elas selam seu próprio destino na obra. Mesmo que as personas das duas garotas possam ser divididas em momentos de realidade e ficção, elas são também apenas uma durante todo filme, tal seja: elas mesmas. Sem que necessariamente precisemos dividir o filme em realidade e ficção, cada personagem torna-se apenas um. Assim como a fruição estética que a obra nos provoca nos remete a um único acontecimento (com vários desdobramentos). A porção de realidade não precisa afinal ser real, pode apenas brincar com seus signos, como quando o diretor conversa com o produtor sobre o roteiro. Diálogo ensaiado, porém, parte de uma mesma brincadeira. Desta forma, o filme ganha contornos de comédia leve, fluída e se livra do peso de ser apenas uma experiência formal.
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Objeto raro.