MOSCOU:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Enrique Diaz, Antônio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio
Duração: 78 min.
Estréia: 07/08/2009
Ano: 2009


O texto, o gesto e a memória


Autor: Fernando Oriente

É notável como Eduardo Coutinho, após se consolidar como um dos maiores documentaristas do mundo, não para de procurar novas formas de expressão e de evolução em seu cinema. Depois de dissolver as linhas de separação entre o documentário e a ficção em “Jogo de Cena” (2007), o cineasta faz em seu novo longa, Moscou, uma bela incursão pelo registro documental do processo construtivo da encenação ficcional. Coutinho acompanha o grupo Galpão durante a montagem de “Três Irmãs”, de Anton Tchekhov, e com sua habilidade para captar as múltiplas camadas de tudo aquilo que filma, enfoca a densa relação entre o ser humano e o poder da palavra; a força que se pode extrair de um texto pela construção dramática calcada na faculdade da palavra. É o registro sensível desse texto que vem à tona em meio ao gesto e aos corpos daqueles que o articulam.

Em Moscou, Coutinho usa uma montagem teatral que nunca irá ser encenada, e com apenas as três semanas dadas ao grupo de Belo Horizonte para trabalhar o texto, retira desse processo criativo fragmentado elementos da obra de Tchekhov em que as sensações de angústia do homem comum e o peso do tempo de espera chegam de forma plena ao espectador. Da sofisticação dramática de Tchekhov, o cineasta extrai o vazio intransponível que condena os personagens da peça. É um diálogo constante entre as limitações e possibilidades de homens e mulheres e as representações ficcionais dessas condições humanas tratadas no texto original. Moscou é um estudo do processo criativo e construtivo por meio de seus movimentos internos.

Coutinho alterna planos do ensaio com workshops e cenas de bastidores do Galpão. Novamente o cineasta adentra a construção fílmica do conflito entre realidade e ficção e, ao pôr os fragmentos do drama ficcional em primeiro plano pela intensidade da palavra, correlaciona no real as conseqüências e a penetração da ficção. Antes de tudo, Moscou é um tributo ao poder do texto de Tchekhov e como esse texto é universal ao representar a fragilidade do ser humano. A opção em abordar “Três Irmãs” por meio da construção da encenação amplia ainda mais o aspecto sensorial das emoções da obra. Ao depurar e enxugar os elementos dramáticos e os recursos de encenação e deixar o texto apenas no discurso dos atores, a força desse texto é sentida de maneira mais crua e objetiva. Os atores são identificados logo como “gente comum” e, como a força da palavra vem de seus discursos, a identificação do público com o drama se torna mais complexa.

As opções estéticas de Coutinho são destaque a parte. Ângulos fechados nos atores, com seus rostos em primeiro plano, aumentam a complexidade da relação do humano com a palavra e com a significação das emoções contidas nos nuances do texto original. É notável a preocupação do cineasta em buscar o gesto natural, a expressividade autêntica e a espontaneidade dos tipos que filma. O trabalho de luz, usando a iluminação artificial do teatro, forma uma moldura discreta para o registro das ações e dos discursos. A simplicidade desses recursos esconde o sofisticado conceito estético que caracteriza a obra do diretor. A câmera não se preocupa apenas com a captação dos atores e atrizes e seus movimentos. O cenário, o ambiente onde o processo de construção de “Três Irmãs” está em andamento, também é destaque no longa e a relação entre espaço físico e atuação ganha tratamento primoroso nos posicionamentos de câmera.

Outra característica presente em Moscou, e que também pode ser comprovada por meio dos últimos trabalhos de Eduardo Coutinho, é a preocupação do diretor com a memória. Esse enfoque é nítido dentro da obra de Anton Tchekhov e a releitura extremamente atual desse conceito elaborada por Coutinho eleva seu novo filme a um patamar ainda mais sofisticado. É na abordagem feita na convergência de múltiplos elementos que o cineasta ergue as estruturas de seu cinema brilhante.

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