À DERIVA:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Laura Neiva, Vincent Cassel, Débora Bloch, Camilla Belle.
Duração: 103 min.
Estréia: 31/07/2009
Ano: 2009


A verdade à deriva.


Autor: Cesar Zamberlan

“À Deriva” passou em Cannes e foi bastante aplaudido na sua sessão. Fato compreensível vendo o filme, até porque tem tudo para agradar um tipo de público, assim como vai desagradar bastante a outro. Fato natural em se falando de arte e do julgamento que se pode fazer dela. Mas o que leva muitas pessoas a gostarem de À Deriva?

Arrisco dizer que é a embalagem do filme, aquilo que ele trata na aparência, mas fica longe de enfrentar na sua verdade. Poderíamos dizer que o filme tem um quê de sofista. E quando digo sofista remeto à crítica, nem sempre verdadeira, que era feita a esses pré-socráticos que usavam a linguagem para qualquer fim, valendo se da capacidade retórica da palavra. “A palavra pode tudo”, dizia Górgias. Pois bem, as imagens de Dhália caminham nesse mesmo sentido, elas tratam de um mundo embelezado, fetichizado, mesmo quando aborda pesados dramas familiares ou juvenis; mas fica na aparência das coisas e não se preocupa em momento algum em mergulhar numa possível verdade existente por trás daquela bela paisagem, daqueles belos corpos e daqueles belos rostos.

Tudo é bonito, mas tudo é falso, não há verdade alguma naqueles personagens, naqueles planos, no filme. E quando se diz verdade, deve se pesar também - e aí as críticas aos sofistas perdiam peso – o quão relativo é afirmar que tal coisa é de fato verdadeira ou não. O filme de Dália poderia explorar essa dualidade e a trama, que trata do fim de um casamento por causa de uma traição pelo olhar da filha do casal, tem esse dado, esse desdobramento, mas a questão não está tanto no que o filme trata, mas no como ele aborda a questão. A idéia do filme, a história, não é ruim, tem algumas boas sacadas, mas ela é filmada, narrada, de modo equivocado a ponto de destruir as premissas que poderiam soar interessantes e impor, de maneira óbvia, uma leitura bastante rasa e tola dos personagens, sejam eles adultos, ou adolescentes.

Sem entrar ainda na trama, é preciso dizer que a fotografia “bem cuidada”, extremamente saturada com o uso do Ektachrome, longe de explorar a luminosidade que o sol de Búzios poderia oferecer e se por à serviço do filme, sobretudo, dá ainda mais a impressão da busca do embelezamento pelo embelezamento, algo próximo dessa estética publicitária que vende qualquer coisa desde que a imagem atenda aos anseios do consumidor que não sabe bem o que quer a não ser consumir.

A construção dos planos segue a mesma lógica e a relação entre eles inexiste. Uma imagem não casa com a outra, o filme é todo truncado porque os planos de certa forma não dialogam, não “escorregam” um no outro, construindo a narrativa. Tenta-se corrigir isso com a música nos dizendo o que devemos sentir, mas esse efeito vira defeito e só piora o filme. E assim o sentido do filme se põe mais à deriva que os personagens, pois a lógica do filme, mal resolvida na sua estrutura narrativa, no seu dizer, faz com que a imagem que nos é dada traga, a cada momento, um novo rumo - até com as insuportáveis pistas falsas a serem desmentidas momentos depois. E todo esse descaminho narrativo, que a cada hora aponta para um lado na construção dos personagens, quebra o filme em todas as suas estruturas, acaba com a sua organicidade e nos coloca a pergunta: o que vem agora? E aí Dhalia nos responde com imagens e situações óbvias, sem sutileza ou poesia alguma, ou pior, com uma poesia barata, “paulo coelhiana”.

(O marido não lava a louça, mas depois que a trama se revela e ele assume a casa, há a cena dele na pia tentando vencer a pilha de pratos; a mulher alcoólatra joga o uísque na pia; assim com a filha joga o revólver ao mar; o sonho da menina com o cachorro feroz; o pai agora vítima da situação salva uma família de um acidente, cena parecido aliás com o também odioso “Crash” de Paul Haggis; a perda da virgindade e o nascer do sol etc etc etc.)

Tudo, de uma “filosofia” tão rasa e de uma poesia tão bobinha que chega até a revoltar quem espera daquelas imagens e daqueles personagens alguma humanidade por trás da encenação que privilegia corpos, olhares, bocas, falas tolas, comportamentos nada justificados, sendo alguns de julgamento mais complexo e arriscado: uma certa misogínia, um filmar a adolescente que beira um erotismo, digamos, pouco resolvido no filme e na cabeça do cineasta. Mas não entremos nesse lamaçal. Pois é tudo pose, não há verdade alguma impressa naqueles fotogramas.

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