A GAROTA DE MÔNACO:


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Original: La fille de Mônaco
País: França
Direção: Anne Fontaine
Elenco: Fabrice Luchini, Roschdy Zem, Stéphane Audran
Duração: 95 min.
Estréia: 24/07/2009
Ano: 2008


Passo.


Autor: Cid Nader

Deslocando um pouco o foco turístico de admiração para Mônaco – até porque a diretora é de Luxemburgo, apesar de todo o restante ser francês - Anne Fontaine tenta atingir de diversas maneiras (inclusive – como fato nutrido fervorosamente por uma espécie de cinéfilos - pelo prazer geográfico causado por aquela região do planeta) uma platéia que privilegia filmes falados em francês, desde que... falados em francês, sem nenhum outro tipo de comprometimento ou atrativo a mais. Ela até tem uma razoável ficha de trabalhos realizados nos últimos doze anos, sem que nenhum seja extremamente digno de recordação ou desaprovação execrada – mas dentro de uma “normalidade” de intenções (tecnicamente, cinematograficamente, falando) que talvez seja o maior dos pecados para quem pratica e executa arte.

Li por aí alguns elogios tentando intuir uma certa satirização de um modelo de cinema norte-americano em A Garota de Mônaco, mas me parece que isso é ser condescendente demais com um filme que tenta sim a similaridade com modelos ianques, mas de modo reverencial, imitador, como cópia ruim de modelos ruins. A cidade/país serve de modelo para as câmeras, aditando suas formosuras geográficas com a beleza da atriz escolhida para o papel principal (Audrey, uma garota do tempo da TV local), Louise Boourgoin. A “brincadeira” imaginada pela diretora ao fazer um famoso e “veterano” advogado (Fabrice Luchini e sua “carinha meio insuportável” interpretando Bertrand) se apaixonando perdidamente (como seria óbvio intuir ao explicitarem-se as disparidades físicas, os atrativos mais velozes, a sisudez e a timidez confrontadas e provocadas pela plasticidade típica da juventude), esquecendo “o rumo de casa”, da lógica, da vida comum, poderia ganhar muitos pontos se levada mais com “cuca fresca”.

Mas a diretora brinca, inventa, impõe a possibilidade do antagonismo entre as situações dele e dela -com um terceiro vértice, ainda, recaindo sobre a figura sensível de um guarda-costas de ascendência árabe (Roschdy Zem) -, tem tudo nas mãos para tratar do assunto, ou com singeleza, ou com comicidade ácida (aí sim, parecendo fruto de “imitação” boa), e nada disso é o que se constata com o passar do tempo, com o desfilar do sol, das chuva, das festas, de Mônaco, dos maluquinhos festeiros de plantão...

Com muitas suspeitas do que estaria realmente se passando na cabeça da diretora (que também é a roteirista, juntamente com Benoît Gaffin – e veja-se este modelo de trabalho, bastante calcado no roteiro como sua mola mestra, como um perigo para a arte), com alguma indignação que cresce no peito ante a flácida composição narrativa, com um incômodo que se avizinha a cada frame avançado, o que é “servido” ao final, o que é “concluído” (sim, porque neste tipo de trabalho que provoca calafrios, indeterminados em sua origem aparente, é de se esperar que haverá “conclusões” - e isso é como botar um “moral da história” onde não teria que se botar nada, se a intenção fosse razoável), quebra de vez qualquer expectativa (ou confirma, melhor dizendo). Há moralismo, facilitação, “bondade” superior sobre o imigrado (incrível como quase sempre há, de algum modo, por várias enganações, nestes trabalhos de origem francesa recente), justiçamento sobre a “malandragem” imaginada e executada através da sedução.

Mais do que simples bobagem, tem alguma má fé na sua essência – além de ser esteticamente estéril, tecnicamente conformado (o que seria de se esperar).

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