INIMIGOS PÚBLICOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Public Enemies
País: EUA
Direção: Michael Mann
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard
Duração: 140 min.
Estréia: 24/07/2009
Ano: 2009


Michael Mann assina mais um longa primoroso


Autor: Fernando Oriente

Michael Mann chegou ao topo de uma careira singular com “Miami Vice”, obra-prima lançada em 2006. Agora, em Inimigos Públicos, o cineasta transporta seu cinema de esplendor para a visceralidade da condução centrada no poder do encadeamento dos eventos. Em seu novo longa, os climas e atmosferas únicos que Mann é capaz de compor estão presentes, mas a sucessão de situações interligadas (base do cinema clássico norte-americano) é mais evidente e o aspecto dramático-narrativo do roteiro é o centro de onde parte o diretor para conduzir o espectador por uma turbulenta jornada em que valores individuais e códigos de ideal se confrontam com as impossibilidades da realização dos desejos. John Dillinger (notório ladrão de bancos americano vivido por Johnny Depp) é mais um dos tipos deslocados de Mann, um homem atirado à margem dos mecanismos da vida ajustada que orienta o cotidiano das pessoas comuns. Esse conflito tão caro ao cinema do diretor, entre a existência corriqueira e a as situações limite, é o núcleo de onde surgem as tensões dramáticas sofisticadas que Mann envolve com a significação estética da beleza de suas imagens e com sua capacidade de imprimir o peso do tempo em cada sequência que filma.

Não existe na obra de Michael Mann o exibicionismo visual, muito menos o encanto estéril das imagens. Cada elemento da forma em seu cinema tem uma significação pregada à matéria de seus filmes. Ele é um cineasta que usa com maestria os efeitos estéticos para compor as tensões do quadro. Usa todo esse arsenal pictórico para penetrar os ritmos e as sensações de seus personagens. Em Inimigos Públicos a ação é mais marcante do que em seus longas anteriores, o que fica evidente nas inúmeras sequencias de tiroteios e fugas. John Dillinger não tem os mesmos momentos de escape existencial que o personagem de Colin Farrell tinha em “Miami Vice”, nem os instantes de contemplação de Tom Cruise e Jamie Foxx em “Colateral”. Ele não pode perder-se em longos diálogos como os tipos de “Fogo Contra Fogo” e não encontra tempo para um aprofundamento dentro de suas angústias como William Petersen em “Caçador de Assassinos”. O tipo de Johnny Depp está sempre em movimento, mesmo quando dedica-se à mulher que ama. O movimento contínuo, urgente, em direção a eventos próximos dos quais não tem controle está sempre presente. Só que essa tensão que envolve o personagem não é percebida por ele, que nunca pensa no amanhã como dizem aqueles que o cercam. A jornada de Dillinger rumo à condenação já está traçada e a velocidade das ações a sua volta não permite que ele pare. Cada acontecimento em Inimigos Públicos desencadeia um novo fato e é essa amarra, esse contínuo do roteiro, que surge como elemento diferenciador do filme em relação ao que estamos acostumados a ver em Michael Mann. Desse ponto de vista, o longa encontra correlação com alguns dos principais trabalhos de Martin Scorsese, em que ascensão e queda são retratadas de maneira visceral.

A importância dada por Dillinger a valores e princípios produz algumas das melhores situações dramáticas do filme. Não é aquela velha história do bandido de bom coração. O que o personagem carrega são conceitos de lealdade que o ajudam a se relacionar e a interagir de maneira mais autêntica com as pessoas. Como um típico personagem de Mann, o inimigo público número um vivido por Depp, impedido de interagir de maneira normal com o mundo, se apega a esses princípios para imprimir seu caráter, para autodeterminar sua identidade. O diretor lida com seres humanos, não com clichês maniqueístas. Dessa situação surge a força que move suas ações e a urgência de sua luta para manter-se vivo e gozar o que tomou do mundo. Na intensidade da sucessão dos fatos, a fragilidade do protagonista com o fim próximo e a impossibilidade de viver plenamente seus desejos dão o tom trágico que as belas cenas de Mann capturam de maneira sensorial.

As sequencias de ação são construídas com impressionante primor, marca comum a toda a obra do diretor. Os tiroteios, roubos e fugas são intercalados por momentos de suspense em que a decupagem prioriza a contextualização dos personagens em meio ao cenário incerto de eventos violentos. A violência está em todo lugar. Quando não rompe explícita na tela, sentimos que aguarda para explodir e levar todos com ela. O lado humano dos personagens é esmagado por essa brutalidade inevitável e é esse ambiente contaminado que impede os tipos de fugir da condenação. Tanto gângsteres quanto policiais estão excluídos de qualquer possibilidade de redenção. Não há como escapar da perpetuação da violência. É por meio dela que se sobrevive ou se morre. A morte em “Inimigos Públicos” é bruta, é sentida antes de chegar e é imposta como uma solução pelos agentes desse conflito.

Michael Mann trabalha com representações de sentimentos. As sensações dos personagens são traduzidas por meio de sequências em que o que sentem é refletido em situações quase arquetípicas em que os efeitos estéticos impressos nas cenas revelam o interior dos tipos. Desejo, medo, solidão, angústia e frustração são retratados em momentos de forte intensidade emocional (nunca sentimentalistas), em que um tom propositalmente caricatural exprime em imagens idealizadas os aspectos ordinários do caráter humano. Não há preocupação naturalista nas cenas. Mann quer extrair a verdade e o aspecto universal do que seus personagens sentem por meio da beleza artificial que imprime em suas imagens. É através da beleza que o diretor constrói essa verdade de seu discurso, em que cada detalhe serve para legitimar as emoções encenadas.

Em Inimigos Públicos, Michael Mann troca o forte uso das cores de seus últimos longas por uma presença mais constante dos tons e dos ambientes escuros, intercalados pela claridade esbranquiçada de sequências diurnas ao ar livre. Em ambas as situações, a ausência significativa das cores extravagantes serve para dirigir o olhar do espectador para o que está acontecendo, deixando explícito nas cenas claras ou induzindo nas passagens emolduradas pela penumbra, a força do que é feito ou dito. Os tons escuros acabam tendo a mesma importância das cores fortes dos filmes anteriores, já que refletem da mesma maneira os estados de espírito dos tipos. Quando os ambientes filmados são escuros, o posicionamento da pouca luz e o apuro dos enquadramentos ressalta a beleza com que Mann compõe o quadro. É a soma de todos esses elementos, desse cuidado com que o cineasta envolve o todo de seus filmes, que fazem de seu cinema um dos melhores do mundo atualmente. Inimigos Públicos é a mais recente prova disso.

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