HORAS DE VERÃO:


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Original: L’heure d’été
País: França
Direção: Olivier Assayas
Elenco: Juliette Binoche, Charles Berling, Jérémie Renier.
Duração: 103 min.
Estréia: 03/07/2009
Ano: 2009


Horas de verão: trabalho de quem entende do assunto


Autor: Cid Nader

O diretor Olivier Assayas emplaca nesse seu mais recente trabalho um filme francês na essência máxima que se faça possível através de qualquer análise mais ampla, dentro de sintetizações narrativas e espaços limitados, sobre o que é o povo, o jeito de ser, as manifestações e o cinema do país. No início, seu filme é prolixo ao extremo, com conversas na mesa de uma comemoração de aniversário, conversas no entorno da mesa, discussões no jardim, enquanto se abre um vinho ou durante a abertura de um pacote de presente, resgatando a crença em um povo absolutamente iluminista (racional) na maneira de compreender a vida, que tenta resolver, sempre e sempre, seus problemas através de conversas pormenorizadas e extenuantes - Horas de Verão ameaça com esse seu início, com esse braço, revelar-se obra que extenuará também o espectador menos paciente.

Mas o modo francês do filme deriva, e - até concomitantemente ao "exercício dialoguista", mas num modo que não "agride" tanto para se ostentar ao olhar desde o começo - chancela na tela o modo culto do povo do país de se manifestar, através do desfilar de obras mil, numa casa que poderia ser um museu por tantas opções, mas que revela-se lenta e belamente um lugar relicário de emoções contidas em cada caco, em cada tela, em cada móvel. O filme, sob música boa, vai colocando ao olhar do espectador possibilidades artísticas que nem precisariam ser conhecidas de modo íntimo para fazer perceber sua beleza e importância, e para fazer perceber o quanto o francês preza as coisas do passado, e o quanto esse prezar não é afetado, mas evidente modo contíguo ao modo de vida cotidiano - evidente que isso não pode ser extrapolado para o todo do povo do país, tão evidente quanto perceber que, quantitativamente, a possibilidade dessa apreciação culta é muito maior dentro do total das pessoas de lá, do que em qualquer outra região do planeta. Binômio, racionalismo/arte, é quase a essência total de caracterização simplificada do que é a França, fato que se completa a contento quando a gastronomia faz disso, um trinômio.

A história, francesa, neste filme, absolutamente francês, inicia numa casa de campo onde a mãe, representada por Edith Scob, recebe seus três filhos para o almoço de seu aniversário. A câmera se desloca elegantemente pelos ambientes do local, e enquanto captura momentos de conversas isoladas entre ela e cada um dos filhos, entre irmãos com irmãos, ou enquanto sugere as brincadeiras das crianças que aproveitam a oportunidade do passeio campestre, revela detalhes do cenário, esbarra em obras de arte e auxiliada pelos microfones captura também assuntos relativos sobre as obras e suas origens - na verdade a mãe conserva um acervo que foi ajuntado pelo seu tio pintor do século XIX, Paul Berthier, e tenta fazer com que cada filho dê destino a ele (ao acervo) quando morrer. Ante a recusa dos filhos diante do assunto "morte da mãe", e ante ao racionalismo dessa querendo ver tudo acertado (mesmo gozando de boa saúde), Assayas começa a fazer perceber que seu filme tem como o assunto embutido na exposição evidente do "galicismo" praticado até então, que Horas de Verão está tratando do tempo e da memória. Aos poucos, se percebe que todo o entorno culto e racional está a serviço do assunto afetuosidade, e que todo esse cenário criado transita de modo natural nas histórias dos envolvidos por ela.

Assayas amplia seu leque de memória afetiva quando empresta importância - nunca declarada e calcada, mas sugerida e evidentemente forte e importante - a uma empregada da família. Quando, mais à frente, num museu, diante de um vaso importante do século XIX, o filho mais velho e sua mulher comentam sobre o destino de um vaso "gêmeo" desse, e à sucessão sobre se houve uma resposta ao cartão de natal enviado por aquela, a síntese não exposta do filme se faz totalmente revelada e, sem alarde, faz entender a amplidão da rede emocional que abarca os personagens. Outro grande momento que dá idéia dessa amplidão se dá na festa jovem que encerra o filme, por não emprestar juízos ou julgamentos, por trazer a lágrima escapada de onde não pareceria surgir. O filme, culto e francês, revela seus personagens muito humanos aos poucos, nos detalhes, em meio ao ostensivo e belo modo técnico como é confeccionado: e isso faz a diferença entre obras cinematográficas, boas ou não.

Além do diretor entregar um trabalho extremamente bem confeccionado técnica e esteticamente, o andar da carruagem revela que o filme é mais profundo ainda do que sugere nos primeiros movimentos; mais belo no modo de compreender as gerações - em suas diferenças mas, principalmente, pelas suas semelhanças -; e esperto por mesclar esse modo de compreendê-las, ao modo de expor as memórias afetivas (imageticamente na forma das obras e da casa, e, internamente, pelas reações nas atuações, que nunca são exageradas, contundentes, egoístas - sempre se compreende a razão de manifestações com jeito egoísta).

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