INIMIGO PÚBLICO NÚMERO 1 :


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Original: L’instinct de mort
País: França/Canadá/Itália
Direção: Jean-François Richet
Elenco: Vincent Cassel, Cécile de France, Gérard Depardieu
Duração: 113 min.
Estréia: 03/07/2009
Ano: 2009


Não dá para avaliá-lo capenga


Autor: Cid Nader

Há algo de complexo em ver filmes com duas partes quando estruturados para serem “dependentes” (as partes) uma da outra. O diretor, Jean-François Richet, até fez desse seu primeiro segmento um espetáculo agressivo e ostensivo o suficiente para se sustentar sobre a “própria perna”. Mas, ao final, acabam restando dúvidas que se fazem pertinentes o suficiente para quase invalidar análises mais conclusivas e estendidas sobre modo de construção, ideais de andamento, técnicas narrativas e o que seriam invenções saudáveis, ou falhas, que só poderão ser reparadas quando da “segunda perna” pisando por aqui.

Pelo que deu para depreender – há muita coisa a ser vista e curtida (ou odiada), mas talvez ganhem força ou revelem debilidades mais à frente, no momento da visita à obra completa - a idéia do diretor foi a de contar a história de Jacques Mesrine (um famoso gângster francês das décadas de 60 e 70), com suas técnicas de ação pirotécnicas e violentas nos momentos dos assaltos e das intimidações servindo exemplo para o meio pelo qual o filme também deveria transitar no momento de sua confecção. O que resulta de modo evidente na tela é um dos trabalhos cinematográficos mais violentos exibidos nas telas.

Para tentar criar valia a tal onda de explosões irracionais que o filme ostenta, há um início que regride à suposta formação do caráter forte (digamos assim) de Mesrine, num momento em que a França se via atulhada pelas “guerras” separatistas de suas colônias na África Árabe do Norte. Visualmente, tal momento é construído com excessos de barulhos, gritos, suores, e reações intempestivas, quando um “bando” de soldados franceses tenta arrancar informações de “guerrilheiros” argelinos. Tudo que se verá mais à frente – em alguns momentos, de modo idealizado (a tal douração de caráteres? Tão comum ao cinema quando resolve retratar seres que agiram na marginalidade da oficialidade social, mas que por algum motivo viraram mitos), em outros, revelando uma “besta” insensível agindo como que por “karma introspecto” oriundo sabe-se lá de onde e de quando – rescindirá gosto deste início. Pelo bem e pelo mal.

Pelo bem, pois não é comum perceber nas telas de hoje em dia tamanha inescrupulosidade nos momentos de fazer o público ver a imagem de alguém tão friamente animal da maneira que Richet o faz. Pelo bem, pois, espertamente, Richet catalizou para seu filme o nome e a presença inquestionável de Vincet Cassel, o maior exemplo gálico de homem feio e sedutor, com aquela cara pra lá de boa para construir tipos “marginais”, e jeito de atuar que beira um blasè meio corrompido (já que o olhar e atitudes iniciais tendem ao modelo típico da definição, mas a segunda parte...) - o diretor foi esperto o suficiente quando optou por ele, sabendo-se da sua facilidade em angariar platéias diversas mundo afora.

Pelo mal – e aí se situam as coisas mais identificáveis e notáveis do filme, sem o seu apêndice, para que certezas e dúvidas se dissipem ou reforcem -, quando se percebe que há a espetaculização de imagens e de modos de edição, em função de “embelezar” (quando se tenta vender uma idéia falsa de feiura e podridão) os quadros que sucederão na tela e transformarão algo que deveria ser hediondo (sequencias e imagens, não a figura de Mesrine) em algo “belamente cinematográfico”. Pelo mal – e aí, sob a dúvida do que nos apresentará a segunda parte -, quando se percebe pessoas e situações atravessando a história de modo desconexo e irregular o suficiente para que se possa tentar uma compreensão razoável de tempos e situações (poder-se-ia creditar isso a tentativas de fuga pretendida da narração clássica, ou a modos de imaginar o cinema como a arte que permite experiências – algo sempre benvindo e ansiado. Mas a primeira impressão que me restou – e novamente deixo a dúvida da possibilidade de tais “falhas” serem atenuadas quando da obra completa em meu colo -, foi a de atropelos e alguns esquecimentos de base, em favor da brutalidade e adrenalidade imagética pretendida).

O que resta é um filme tremendamente violento, com ações (de fundamento idealizado para tal modelo escolhido dentro da arte) e reações humanas inesperadas; belas mulheres; climas marcantes; e a espera do que virá.

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