CASAMENTO SILENCIOSO:


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Original: Nunta Muta
País: Romênia/França
Direção: Horatiu Malaele
Elenco: Vasile Albinet, Doru Ana, Ioana Anastasia Anton.
Duração: 97 min.
Estréia: 03/07/2009
Ano: 2009


Maniqueísmo grosseiro


Autor: Fernando Oriente

O bom momento do cinema romeno, que vem chamando atenção nos grandes festivais há pelos menos quatro anos, passa longe desse “Casamento Silencioso”. Ao tentar misturar crítica política, poética visual e referências estéticas de Fellini e Kusturica, o diretor estreante Horatiu Malaele se perde em meio a um maniqueísmo grosseiro, clichês simplistas, humor sem graça e uma nítida incapacidade em desenvolver as relações dramáticas. Seu longa é típico representante de um estilo muito em voga atualmente, que faz com que realizadores dos quatro cantos acreditem que a fórmula mágica para se atrair um público “alternativo” e de pseudo-cinéfilos é unir pieguice, bela fotografia, humanismo de butique, “pitadas” de humor e lugares comuns.

Nada mais relevante, principalmente para um romeno, do que criticar o totalitarismo de um regime que tantos males fez a população seu país; regime este que representou de forma clara o modelo daquilo que foi a deturpação do pensamento socialista e a traição dos valores revolucionários marxistas. Como se sabe, esses governos comandaram diversas nações do leste europeu ao longo de boa parte do século XX e foram marcados pelo tiranismo e pela incapacidade política gerados na estupidez do stalinismo. Esses fatores (que ajudaram a fortalecer a frágil retórica reacionária da direita de que a esquerda não tem condições de chegar ao poder) devem ser vistos dentro de um contexto histórico e analisados sob a ótica das relações de força que vigoravam na época. Um dos maiores riscos que se corre ao longo desse processo é a facilidade de se chegar ao maniqueísmo e a simplificação. “Casamento Silencioso” representa exatamente essa visão limitada de uma dialética histórica mal interpretada.

A revisão política da história recente do leste europeu rendeu belos filmes dentro da obra de cineastas importantes como Krzysztof Kieslowski, além de alguns dos melhores longas romenos da atual safra, como “A Leste de Bucareste” (de Corneliu Porumboiu) e “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (de Cristian Mungiu). Infelizmente, o trabalho de estréia de Horatiu Malaele fica longe do resultado alcançado por esses títulos. O que mais incomoda em “Casamento Silencioso” é a construção maniqueísta grosseira e a desorientação estética. Malaele se perde no esforço de impor encantamento nostálgico à suas imagens e erra feio na composição dos tipos. Ao tentar criar figuras dramáticas nitidamente inspiradas em Fellini e Kusturica, o diretor põe na tela personagens ocos em textura que não vão além de clichês irritantes. O que em muitos filmes aparece como homenagem, citação ou mesmo releitura, em “Casamento Silencioso” surge como imitação barata. Os tipos “malucos e estranhos” do diretor romeno estão a anos luz de distancia dos personagens criados por Fellini e Kusturica. O clima fantástico-onírico que tenta imprimir ao seu longa resulta em falsificação e esterilidade estética.

Voltemos ao maniqueísmo. Por mais repetitivo que pareça, frisar esse aspecto de “Casamento Silencioso” é fundamental para qualquer análise séria do filme. Ao denunciar as ações do governo romeno (por meio de um massacre perpetrado em conjunto com o exército soviético contra um pequeno vilarejo na década de 50), Malaele faz uma polarização grotesca entre os habitantes “bonzinhos” e “engraçadinhos” da pequena cidade interiorana e os “ultra-malvados” representantes do Estado local e do governo russo. Para tal, o diretor enaltece tipos grosseiros e vulgares como o pai da noiva (que é alçado a um arquétipo torto de herói) e imbeciliza os personagens simpatizantes ao partido comunista. Mas o pior fica por conta da caracterização do oficial do Exército Vermelho. A entrada do personagem em cena, para dar o aviso de luto oficial pela morte de Stalin, é uma cena patética. Ele surge na tela vindo de traz de um morro, em plano de fundo, e avança em direção a câmera de forma robótica e com olhar ameaçador. Só falta um capacete e a música tema do lado negro da força em “Guerra nas Estrelas” para que o espectador tenha a nítida sensação de estar olhando para Darth Vader! Para piorar, ele esbofeteia um personagem, lhe aponta uma arma e ainda descobre-se que foi o autor de um brutal assassinato na cidade. Como esses comunistas eram maus! Pena Malaele não ter colocado uma cena em que pudéssemos acompanhá-los comendo criancinhas.

Para não ficar apenas nesse aspecto, outros problemas também atrapalham muito o filme. A sequência do casamento em silêncio é uma boa mostra da incapacidade do diretor em compor cenas e de sua propensão a desperdiçar premissas interessantes. Nela, os planos “trombam” uns com os outros e se acumulam, entulhados, em uma sequência que nada diz, além de não produzir nem mesmo o efeito cômico desejado pelo cineasta novato. Ao término de “Casamento Silencioso” fica a sensação de que acabamos de ver um filme que Henry Kissinger e Ronald Reagan adorariam ter produzido e que nem mesmo os devaneios anti-comunistas de Sylvester Stallone nos anos 80 atingiram.

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