PARIS:


Fonte: [+] [-]
Original: Paris
País: França
Direção: Cédric Klapisch
Elenco: Juliette Binoche, Romain Duris, Fabrice Luchini.
Duração: 129 min.
Estréia: 03/07/2009
Ano: 2009


Paris – painel um tanto pálido da capital francesa


Autor: Cid Nader

O cinema de Cédric Kaplish é daqueles que nem cheira nem fede – com perdão por esse início usando frase um tanto tosca. Até gosto mais de Bonecas Russas (2005) do que o que gerou sua existência, o anterior “Albergue Espanhol” (2002). Mas em nenhum desses se sente aqueles sabores característicos da civilização francesa (dom para discussão, racionalidade, frieza, paternalismo disfarçado...) que são muito comuns em todas as obras que saiam de lá sem querer imitar, disfarçadamente, as americanas. Quando se lê Paris como o título de seu novo trabalho a idéia é a de que, provavelmente, ele ressentiu-se das origens, resolvendo falar dos seus e de sua iconográfica capital/cidade luz.

Bem, pensando-se em cinema francês (aliás, qualquer coisa que saia de lá) e pensando-se na força que a cidade imprime nas mentes dos francófilos brasileiros sempre de plantão, o que restou ao final da projeção do filme foi a sensação exata de que essa categoria (francófilos-brasileiros) sairá exultante das salas de cinema, quando chegada a sua oportunidade de conferi-lo. O diretor construiu um painel da capital francesa até mais interessante do que o usual: quero dizer que, para quem imagina estar passeando por Paris, o filme de Kaplish estende o olhar para além do comum da paisagem conhecida (se bem que visite os pontos principais com notável apreço e certeza do quanto filmá-los será benéfico para seu trabalho junto ao público), e revela recantos não muito usuais. Visto pelo prisma do “passeio turístico”, , o filme, confirma a impressão de que seria um trabalho tipicamente nativo, aproveita a cidade conhecida para emoldurar sequencias e dramas, mas ganha pontos ao se estabelecer por bons momentos em um rincão mais específico, fazendo perceber mais amiúde as sensações e interioridades mais particulares de um trecho e de seus seres.

Quando se lê Paris, imagina-se também – isso, desde que a idéia seja mesmo a de realizar um trabalho com “características” locais -, que Cédric Kaplish poderá injetar nas partes moles do filme (a que trata dos diálogos, das interações, dos confrontamentos humanos, da formação de personalidades ou das que definem os dramas e alegrais de cada um) cargas de complexidade humana que somente os franceses (muitas vezes de maneira infeliz e cansativa, mas como um exercício repetido que revela o bom gosto pela “não simplicidade”) exercitam de maneira tão compulsiva e espontânea: ele o faz, para júbilo bem provável de galeras comedoras de croissant. Só que a aí se instala (na realidade se reconfigura) uma má característica do diretor que é a do mau desenvolvimento de seus tipos – para não falar em outra má característica que é a de deixar seus capengas protagonistas meio soltos na telona.

Complica a situação do filme, o fato de ser construído em cima de um painel desconexo (aquele que exige trabalho para reagrupamento das partes), muito ao modelo já um tanto ultrapassado (copiado por anos à exaustão) surgido no momento em que “Short Cuts” (1993) de Robert Altman irrompeu de maneira inovadora e instigante. Complica porque, se se pensa em amontoar histórias e personagens desconhecidos uns dos outros (mesmo que, sempre e sempre acabem se cruzando em algum momento, mesmo que da maneira mais fugaz possível), é de se imagino-los, e às histórias, como frutos de elaboração um tanto mais caprichada; de engendramento mais complexo, mais potente e mais atento a detalhes menores do que o filme sugere e entrega. Durante o transcorrer da película, percebe-se que situações de moldura frágil entornam pinturas somente de bom aspecto plástico (a cena das modelos no “Ceasa” de lá caçando “homens” abrutalhados; ou o momento em que Mélanie Laurent com sua beleza estonteante se posta na vidraça de um bar par amostrar sua “verdadeira” realidade ao professor apaixonado; ou ainda quando um acidente de moto deixa no chão um corpo para ser visto e lamentado “muito por acaso”); percebe-se que as histórias, no fundo mesmo estão lá para fazer força ao primeiro princípio que adotei no texto, quando imaginei o filme como uma homenagem à cidade que lhe empresta o título. Francófilos menos exigentes talvez exultem, eu não.

Leia também: