A ERVA DO RATO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Julio Bressane
Elenco: Selton Mello, Alessandra Negrini
Duração: 80 min.
Estréia: 26/06/2009
Ano: 2009


Erva do Rato: a resistência materializada em luz


Autor: Fernando Watanabe

Existem inúmeras maneiras de se abordar "A Erva do Rato". Este texto, portanto, deve escolher uma dentre várias formas de aproximação com o filme, escolha essa sobre a qual não se tem tanto controle na experiência de se ver o filme - uma vez que os trabalhos de Júlio Bressane constumam estimular significados e sensações sobrepostas e incertas. No entanto, fazer um recorte sobre o meu próprio olhar se faz necessário, sendo assim inevitável que uma redução fatalmente ocorra. Ao se escrever sobre "A Erva do Rato", já se está reduzindo-o a palavras, e quando seleciono apenas uma maneira de abordagem, ocorre a redução da redução: redução de segundo grau.

A maneira de olhar o filme escolhida aqui é aquela que considera o filme como um trabalho. Menos como um produto acabado do que como um procedimento, ou seja, um acúmulo de imagens e sons. Diante de a "Erva do Rato", acredito que faz-se necessário deixar um pouco de lado critérios de análise usualmente utilizados para julgar "produtos transparentes" (que escondem o trabalho do cineasta) e "imagens figurativas" (que mimetizam a "realidade"). "A Erva do Rato", é um trabalho sobre a luz quimicamente fotografada na película. É um trabalho da banda sonora independente jogando com a banda imagética fantasmática.

Pois o que ocorre ali é uma fantasmatização dos atores (Alessandra Negrini e Selton Melo) e do próprio cineasta. Os três "performando" (mais do que "representando") um jogo sobre a "questão da imagem". Ora, tal questão é tão genérica quanto inescapável ao se fazer um filme, e é assim que raciocina Bressane. Quando Selton Melo faz imagens de Alessandra Negrini por meio de uma câmera fotográfica, o resultado é uma imagem de terceiro grau: essas fotos, essas imagens vêm da imagem do corpo dessa mulher, que por sua vez já está dentro de uma outra imagem, que é a do próprio filme - não à toa, em rápidas imagens intercaladas com os créditos finais, o próprio Bressane aparece ao lado de Selton "conchavando", enquanto Alessandra está à parte, na cama, apenas esperando para ver como aqueles dois vampiros irão roubar a sua imagem. Vampiros, no caso, somos também nós que fomos expostos ao filme, consumindo a imagem da imagem da imagem daquela mulher esfinge. E isso é o cinema que prescinde do entrecho para se fazer cinema (por mais que o entrecho esteja lá). É a oferta de imagens carregadas de libido, cujo destino final (ou inicial) é a mente igualmente libidinosa de quem consome aquelas imagens.

Sem dúvida, há sentidos que podem ser intuidos de maneira mais ou menos imediata. Tudo de maneira altamente simbólica. Por exemplo, pode-se dizer que o rato é a sujeira da qual Selton Melo (ou a figura da repressão) tenta se livrar, pois, ao contrário dele próprio (que só tem imagens de Negrini), o rato a penetra, e mais, fornece prazer àquela mulher. A sujeira é o que fornece prazer, logo, é ela quem pode "criar", cabendo aos impotentes eliminá-la - nesse sentido é altamente significativa a imagem em que Selton corta suas unhas sujas após ter castrado o rato. Podem-se, a partir disso, elaborar outros conceitos para fora da imagem, como, por exemplo, um paralelo da tal "erva do rato" com o veneno das imagens de Bressane, ou o veneno da arte imagética de maneira mais ampla, ou como sendo a perversidade intríseca ao próprio ato de "fazer e consumir imagens". Mas, como já foi dito, significações intelectuais (que abundam durante o filme, principalmente em sua primeira metade) não bastam para dar conta da plasticidade, da granulação e das formas projetadas na tela. O movimento da luz é quem sugere os sentidos. Ou melhor, é ele quem movimenta as emoções, reivindicando uma agitação do espírito.

Pode-se notar a evolução do filme em direção ao escuro, pois, à medida que o filme passa, cenas noturnas ganham em duração e gravidade. No decorrer do filme, existe um movimento em direção a algo mais oculto. Contraste e complementaridade entre o amarelo diurno (suposta clarividência) e o azul permeado de sombras (suposta noite que traz os mistérios). Da mesma forma, durante quase toda projeção, quando o filme permanece confinado dentro da casa, ouvem-se os sons do exterior: cachorros, carros e pássaros enviam sinais, diretamente do mundo. A imagem final, transformadora, registra a fachada da casa a medida que os sons do mundo ganham em intensidade, reiterando a dicotomia "dentro-fora". Nessa imagem, o filme fica por um breve momento em contato com o mundo exterior, apenas para, ao final, já durante os créditos, reforçar a condição dos artistas em questão. Por meio de inserts curtos, evidencia o trabalho deles todos. Um trabalho que ocorre do lado de dentro, onde eles permanecem para sempre confinados dentro de um mundo limitado (e expandido) pelo retângulo da tela. Mundo esse tão extraordinário quanto proibido. Em "A Erva do Rato", há muitas coisas que jamais iremos saber e, no entanto, a experiência de se ver este filme só pode ocorrer se respeitarmos os paradoxos, as contradições (que nunca são contradições), enfim, a diferença de mundos que o filme afirma. De um lado, o filme, do outro, o espectador. Se o acesso total nos é bloqueado, podemos, sim, ver o trabalho, o registro do processo que é um fim em si mesmo (pois os fins são sempre ainda meios). A busca por transformação dos artistas projetada na tela, ou seja, a resistência materializada em luz.

Leia também: “A Erva do Rato” e breves comentários sobre o tempo heterogêneo nas imagens de Bressane, texto de Fernando Oriente.

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