VINICIUS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Miguel Faria Jr.
Elenco: Documentário
Duração: 122
Estréia: 11/11/2005
Ano: 2005


"Vínicius": lições de uma nova música


Autor: Cid Nader

Sei que serei expatriado, mas assumo o risco e digo que não acho Vinícius de Moraes o gênio da raça, grandessíssimo poeta e músico - aliás, existem outras figuras das artes no Brasil, que são inquestionáveis, intocáveis, santificadas, e que também me deixam com um pé atrás quanto à sua real grandeza, mas não declinarei nomes no momento, pois o assunto é Vinícius, e a expatriação seria punição leve perto do que poderia estar reservado para mim. Mas, se a função de um documentário é, dar mais subsídios para quem já conhece o assunto e revelar o mundo para quem não conhece, este trabalho de Miguel Faria Jr. cumpriu a missão e me fez rever conceitos de anos, através de uma rede de depoimentos de artistas, que além das revelações a nós expostas pelo grau de intimidade dos depoentes com o poetinha - sua fixação pelas mulheres, os problemas por conta da bebida, as conversas - também me foram bastante elucidativos quanto à importância "técnica" de Vinícius na mudança de conceitos musicais, desde o andamento até a maneira de impostação e velocidade no uso da voz. Não adianta contar detalhes, o negócio é assistir ao documentário.

São contundentes os momentos que mostram a passagem de um pensador racionalista, do mundo das palavras, para, no meu modo de compreendê-lo na infância, sua fase mais marcante, da música de raízes religiosas afro-brasileiras. Vemos na tela uma pessoa mais vibrante, como que "tomada", com uma pulsação "negra", que só poderia ter como destino a sua mudança para a Bahia, com uma guinada tanto musical como comportamental. A utilização de dois atores para quebrar o teor documental da obra, criando "entretrechos" ficcionais, é desnecessária, pois não contribui para o resultado final - os próprios cantores, amigos dele, dão "showzinho", contando pérolas, e as imagens de arquivo, também. Existe um momento em que aparecem Vinícius e Tom Jobim pra lá de bêbados, sentados num sofá, que culmina com uma história, contada por Tom, sobre a reação de sua mulher, que acaba por descontar em garrafas de whisky toda a sua tensão, num momento de ira. Num outro momento, com imagens de arquivo também - provavelmente captadas por sua filha, já que existe um documentário antigo feito com imagens filmadas por ela, não tenho certeza e não consegui maiores informações - num instante de incrível intimidade, acompanhamos Vinícius deitado em uma poltrona, doente, frágil, acariciado - bastante tocante.
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