LOKI - ARNALDO BAPTISTA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Paulo Henrique Fontenelle
Elenco: Documentário
Duração: 120 min.
Estréia: 19/06/2009
Ano: 2009


Loki - Arnaldo Baptista - retratos da vida!


Autor: Cid Nader

Poderia falar que esse documentário de Paulo Henrique Fontenelle até tem alguns problemas estruturais, que não é perfeito ou inovador, que não é obra completa vista sob aspectos mais exigentes ou sob o pensamento analítico. Mas nem vou falar nada não. É impossível apreciar "Loki - Arnaldo Baptista" sob qualquer viés que não seja o da emoção extrema que ele proporciona a qualquer espectador que o assista. E se uma obra consegue esse impacto junto a todos os tipos de platéias imagináveis, se consegue ser unanimidade transitando entre os mais variados públicos, se se coloca como trabalho do qual não ouvi sequer um senão que seja, não seria eu, o maluco que a adora, a tentar pensá-la sob lupa rígida em busca de coisinhas insignificantes.

Se a função primordial de documentários é elucidar aspectos, procurar fatos, revelar dados, utilizar imagens de arquivo, se nutrir de depoimentos verdadeiros, por exemplo, esse aqui cumpre sua função de maneira mais do que completa. Se uma outra possibilidade deles for a de tentar resgatar a imagem perdida, obscurecida, esquecida, de algum ídolo ou bandido, déspota ou conciliador, artista ou um outro alguém de projeção razoável, Fontenelle se mostrou craque e dono de um domínio absurdo nesse resgate. Se a possibilidade de alcançar o público interessado for cumprida e se esse público embarcar de cabeça na história, feito: temos um grande exemplo aqui. Contar as histórias do mito e gênio Arnaldo Baptista em texto aqui nessa crítica seria subestimar o tanto que foi conseguido e contado no documentário, que, ainda mais, vai às raias da emoção sem nenhum "truque" estético ou formalista: emoção alcançada somente pelo obtido, relatado, mostrado em imagens e depreendido pelas nossas sensibilidades.

É óbvio o carinho que o diretor nutre por Arnaldo, mas o que surpreende demais é o carinho meio esquecido de um público que o guardava em algum lugar mais íntimo e que aflora desavergonhadamente durante os instantes em que a película vai ganhando os tempos na tela. O início e suas muitas imagens de arquivo - mostra-se sua infância, os momentos iniciais dos Mutantes, cenas do casamento com Rita Lee (sua paixão, sua loucura, seu tormento, sua perdição), os festivais e as primeiras ligações com o tropicalismo - cumprem uma função de reaproximação para quem já conhecia ou viveu na época, e de alerta e descobrimento para quem só havia ouvido falar do mito, de suas histórias; a infinidade de depoimentos (e o teor de sincera emotividade brotados deles), preenchem todos os espaços que buscavam por quês, explicações, esclarecimentos, e colocam qualquer um que assiste ao filme definitivamente dentro do que está sendo revelado; a junção e edição do trabalho, os tempos atuais tomando seu lugar no trabalho e perceber que a vida pode ser tão complexa quanto simples, acabam finalizando dignamente algo que se mostra sempre digno e respeitoso, em todos os frames.

O mais incrível é que após mais ou menos 1,20h de projeção e emoção, surge uma "novidade" na tela - no meio do momento mais complexo de sua vida - e o filme ganha mais emoção ainda: e remete a história a níveis de humanidade dos mais incríveis e dos mais parecidos com fantasia. A presença de Lucinha na tela, seu surgimento, o modo como Arnaldo narra seu surgimento, faz crer que “existam anjos”, e que deles nós todos necessitamos. O filme passa a ser dominado por um anjo que socorreu outro que havia caído. Acho que as histórias estão lá e todas muito bem contadas. E acho que o filme não fala de seres humanos. Fala do que idealizamos. Fala de nossos sonhos por alguém que nos defenda, e por alguém que nos alegre. Não há outro tão emocionante no momento.

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