STELLA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: França
Direção: Sylvie Verheyde
Elenco: Léora Barbara, Karole Rocher, Benjamin Biolay, Melissa Rodrigues, Laëtitia Guerard, Guillaume Depardieu, Johan Libereau, Jeannick Gravelines, Thierry Neuvic, Valérie Stroh, Anne Benoit e Christophe Bourseiller
Duração: 102 min.
Estréia: 11/06/2009
Ano: 2008


Stella – atenção rara


Autor: Cid Nader

Stella, de Sylvie Vertheyde é trabalho daqueles até raros dentro da cinematografia atual, mesmo carregado de símbolos e alusões recorrentes ao que se produz culturalmente no país. Tal simbolização vem na repetição das intempéries emocionais da maior parte dos personagens que desfilam na tela durante todo o tempo da projeção, por exemplo; na elaboração complexa dos de lá nos momentos de se achar caminhos e soluções; nas atitudes adultas demais para crianças que se possa imaginar saudáveis já quando forem cronologicamente adultas; ou na construção fílmica da família e entornantes, muito pouco razoáveis dentro do que se imagina normalidade – disfuncionais, para usar um termo bastante repetido atualmente -, muito pouco próximos de emprestar atenção a quem necessitaria demais deles num momento pré-adolescente (os psicólogos e pais sabem muito bem o quão difícil é esta fase), já que suas vidas próprias são recheadas de neuroses o suficiente.

Os franceses – e junto com eles, seu cinema – gastam tempos e tempos para discutirem e vomitarem todas essas intempéries, levando-se demais a sério, e construindo uma repetição quase caricata do seu modo de ser e encarar a vida. Mas a diretora Vertheyde conseguiu imprimir afeto e cuidado em seu filme, mesmo discutindo situações até mais complexas – por vezes – do que a complexidade habitual dos seus patrícios.

Tudo se passa ma década de 70, onde os rescaldos dos grandes movimentos libertários da década anterior produziram alguns seres bastante mais instáveis do que o comum. Stella (lindamente interpretada por Léora Barbara), uma garota de 11 anos, mora com em cima do bar dos pais “desajustados” (desajustados no sentido de não saber como aproveitar tudo que as novidades permitem, e de viver num mundo recheado de pessoas “soltas” na vida), que vivem entre bebedeiras, música, jogo, armas (o pai) e a companhia permanente de pessoas sem empregos que encontraram no local, lugar para morar e para se relacionar. O filme se passa num momento em que ela inicia vida nova numa escola (mais gabaritada e frequentada por gente de mais poder aquisitivo), após ter criado encrencas demais em sua vida pregressa.

Montado um ambiente tão confuso quanto o mais razoável dos franceses gostaria, todo o transcorrer da película acaba por revelar sensibilidade muito acima da média, escapando das armadilhas comuns à raça, evitando a discussão por vezes fútil e recheada de excesso de verve, mesmo amparada (a película) pela tal disfuncionalidade exagerada de seus personagens. É sensível, o filme, na sua formatação técnica – a câmera por vezes plana e flaina como que se fazendo de condutora respeitável dos “sonhos” de uma garota em tal situação (aliás, por quase todo o tempo, Stella é o centro do foco, ou o foco subjetivo atento ao que acontece no entorno) -, e sensível a mais na maneira imaginada pela diretora (também, roteirista) de como fazer a garota pular fases, embarcar em outras, encarar os milhares de dificuldades, e encontrar com quem se relacionar.

A presença de uma nova amiga, Gladys (Mélissa Rodruguez), e seu novo mundo bem mais razoável, direcionam-na a rumos mais apaziguadores, sem significar que futilidades e escapes passem a ser a “bola narrativa da vez”. As idas e vindas ao campo também encaixam bem como esclarecedores de algumas outras razões. É assim: afora alguns possíveis exageros (a cena da espingarda empunhada por Stella – se bem que a razão e o desfecho da situação “sejam nobres e justos” -, ou a da tentativa de sedução), Sylvie Vertheyde construiu um filme que retrata momentos na formação de um ser muito pouco explorados no cinema (mesmo dentro de ambientes e países menos complexos). Vale com certeza a ida.

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