INTRIGAS DE ESTADO:


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Original: State of play
País: EUA
Direção: Kevin Macdonald
Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Michael Berresse, Harry J. Lennix, Josh Mostel, Michael Weston, Barry Shabaka Henley, Viola Davis, David Harbour, Sarah Lord
Duração: 127 min.
Estréia: 11/06/2009
Ano: 2009


Intrigas de Estado – discussão atemporal de signos puros


Autor: Cid Nader

É quando termina ao som de uma música do Credence Clearwater Revival que se nota o estabelecimento definitivo de Intrigas de Estado à sua evidente condição de obra atemporal. O que se discute nesta espécie de thriller (quando na realidade o que quer contar, “contextualizadamente”, é de caráter bem mais interiorizado, fazendo com que mereça categorização diferente, menos específica) são processos comuns ao modo de ser da sociedade americana. Quando se tem no mesmo embrulho coisas que falam da política; das atividades da nação, belicamente, em campos estrangeiros; das “virtudes desejadas” e poder da imprensa; da polícia agindo como o braço sério da questão; do casamento; da instituição Estado; percebe-se que a obra está querendo discutir e descortinar interioridades de uma nação “justa” e que se nutre de sua força de “combates”, surrupiando o poder decisivo que o tempo em que se passa a história poderia ter, para poder fazê-la compreensível no “contexto” (repetindo o termo) mais abrangente da história.

O filme do diretor Kevin Macdonald faz perceber, desde o início, o quanto a imprensa deveria saber utilizar a força da pureza que tal “profissão” deveria sempre exercer. É um trabalho que se apodera de vários signos da virtude de um país absolutamente protestante na sua carga genética que clama por rigidez e honestidade, embaralha-os, fazendo com que passem a ter de responder ao espectador o quanto cada um deles está desviando-se do caminho reto. Para fazer mais forte esta condição de obra atemporal, inicia dentro do mesmo jornal a ostentação de épocas distintas entre o repórter que se nutre da pesquisa na rua e escreve num computador com tela de fósforo verde (Cal McCaffrey, interpretado por Russel Crowe), e a jovem jornalista responsável pelo blog do órgão – portanto mais fugaz, no início, na ânsia de colocar matérias “no ar” em tempo quase real – (Della Drye, protagonizada por Rachel McAdams).

O filme, que inicia com uma perseguição atarantada, pequenos atropelamentos e assassinato em plena rua, insere, logo após, o momento em que a “desejadamente” incorruptível imprensa trava o primeiro contato com as autoridades de polícia (também alvo eterno de anseios por justiça e proteção): McCaffey cheg á cena do crime e trava acordos lícitos para poder ter uma certa regalia que o faça largar na frente na corrida das informações. Mais à frente, esse pequeno crime crescerá – fermentado por mais um outro nos trilhos do metrô -, a política oficial será introduzida na história e as gestões de defesa da pátria (há uma ação no Congresso que tenta entender o poder das forças milicianas, e as ações que tentam fazer a segurança da nação algo privado) são colocadas num altar de discussão.

Até tentando entender que há correção no modo de filmar e editar (há toda uma dinâmica interessante que faz com que o filme ande bem); até percebendo que há um roteiro bastante elaborado criando idas e vindas, causando surpresas em cima de surpresas, reviravoltas (e nisso, o filme também estabelece contato com tempos imprecisos, já que existe a tradição do cinema americano neste tipo de construção de histórias e desfechos); até entendendo a utilização de dois astros de ponta como modo “garantido” de segurar alguns tipos de pontas junto à expectativa de público desejado (trabalha também, como um político fervorosamente desejado como alguém incorruptível e sério, Ben Affleck); até entendo que o diretor Macdonald soube fazer do trabalho algo facilmente comprável e de acesso garantido a quem não queira tentar percebê-lo como obra que transcenda compreensões mastigadas, o forte mesmo de Intriga de Estado reside nas discussões camufladas e de força real na história e no decorrer da formação da nação.

Visto por prismas acomodados se sai da sala com a certeza de se ter visto um razoável e somente competente filme americano. Visto com mais minhocas se revolucionando na cabeça dá para encará-lo como algo melhor, como algo que discute valores, numa terra que adora discuti-los, até porque acredita piamente nas próprias virtudes, na virtude da imprensa (o filme deseja o jornal impresso e faz disso mais um signo), na incorruptibilidade da polícia e dos políticos, e na necessidade da proteção pátria às possíveis investidas “impuras”.

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