A FESTA DA MENINA MORTA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: BRASIL
Direção: Matheus Nachtergaele
Elenco: Daniel de Oliveira, Juliano Cazarré, Jackson Antunes, Cássia Kiss, Dira Paes, Ednelza Sahdo, Conceição Camarotti, Laureane Gomes
Duração: 110 min.
Estréia: 11/06/2009
Ano: 2009


Nachtergaele estréia bem em meio à temática difícil


Autor: Fernando Oriente

Cinema, no sentido que damos a uma das artes mais complexas, dialéticas e cheias de potencialidades, é algo raro de se ver hoje no Brasil. Em meio à enxurrada de produções que tentam vender um falso Brasil por meio de estéticas importadas e comédias vulgares de humor barato mimetizadas da televisão, sobram poucos filmes que realmente empolgam aqueles que gostam de cinema. Em seu primeiro longa, “A Festa da Menina Morta”, Matheus Nachtergaele vai ao sentido contrário desta tendência e oferece ao público uma bela obra em que o que mais chama atenção é o talento do cineasta novato para dirigir e conduzir um drama e suas possibilidades. Nachtergaele conduz o filme com firmeza, explora os elementos fílmicos com competência e trabalha a dramaturgia com vigor estético. Como acontece quase em todos os trabalhos de estréia, “A Festa da Menina Morta” tem seus pequenos problemas, mas nada que atrapalhe o resultado final deste belo filme, de tema difícil e cujas imbricações o cineasta estreante soube explorar.

É, principalmente, na construção dos planos que Nachtergaele mostra seu talento “nato” de cineasta. Ele trabalha com planos longos, em que aproveita todas as partes do quadro para compor uma mise-en-scene sólida que transparece as probabilidades do drama e as ambigüidades e nuances dos personagens. Usa bem a oposição entre primeiros planos e planos de fundo e movimenta a câmera com sutileza e elegância, desvendando personagens e situações no compasso certo da condução narrativa de cada sequência. No filme, também existem as cenas (tão comuns no atual cinema) de câmera trêmula e na mão. Mas o que em muitos filmes é um vício e serve de disfarce para deficiências, em “A Festa da Menina Morta” surge como recurso coerente. A força do longa vem do talento estético e da noção do diretor em explorar o que o cinema tem de mais elementar: o poder das imagens e como esse poder é convertido na construção de boas cenas.

“A Festa da Menina Morta” é um filme em que os conflitos dramáticos não vêm apenas de seu personagem principal. Os coadjuvantes, os tipos que cercam o “santinho” que lidera espiritualmente a comunidade amazônica onde se passa o longa, têm papel crucial na cadeia das interrelações criadas por Nachtergaele. Cada figura dramática é cheia de significação, são pessoas que carregam forte carga emocional e sua simples presença em cena criam as tensões com as quais o diretor ancora seu discurso. A caracterização desses personagens é ponto forte. Quase todo o elenco está preciso dentro de seus papeis e Nachtergaele sabe tirar boas interpretações de seus atores. Talvez o único ator que flerta ligeiramente com o ‘over acting’ é exatamente o protagonista; Daniel de Oliveira. Devido à densidade e aos conflitos internos vividos pelo “santinho’ que interpreta, Oliveira chega a passar do ponto em determinadas ocasiões, mas não chega a derrapar totalmente na condução de um personagem difícil que passa constantemente por situações que exigem muito de um ator.

Em seu primeiro longa, Matheus Nachtergaele decidiu abordar um tema caro ao Brasil: a espiritualidade e o misticismo e como toda uma mitologia pode ser criada e enraizada a partir das questões que envolvem a fé. “A Festa da Menina Morta” mostra como o esse misticismo pode recalcar e esmagar as especificidades e as manifestações das pulsões nas pessoas. Desejos são reprimidos, sexualidades são distorcidas e transformadas em escapismos catárticos e a dureza da realidade com todas as suas angústias são alienadas na construção mítica da fé. A pequena cidade nos confins do Amazonas onde se passa o filme traz elementos e personagens comuns a todos os cantos do Brasil. A grande diferença é que o isolamento aumenta a força de propagação e de consolidação dos mitos. A morte como forma de purificação e endeusamento tem suas raízes no cristianismo e em outras tantas religiões espalhadas pelo mundo. Um dos méritos do filme de Nachtergaele é mostrar o paroxismo das variações desse fenômeno na vida de pessoas comuns.

Os pequenos problemas em “A Festa da Menina Morta” são, em grande parte, devido ao possível desejo de perfeccionismo estético do cineasta estreante. A fotografia de Lula Carvalho muitas vezes destoa da diegese, dando um aspecto bonito demais a imagens que poderiam ser trabalhadas de forma mais simples e secas. A carga dramática de algumas sequencias é por vezes excessiva, retirando o poder que essas cenas teriam por si só, se deixadas mais concisas e comedidas em seu desenrolar narrativo e apoiadas apenas na força das imagens. Mas isso são apenas detalhes, que devem ser ajustados por Nachtergaele em seus próximos filmes. O que fica claro ao final da projeção do longa é que estamos diante de um cineasta de inegável talento e que sabe o que é, verdadeiramente, se fazer cinema.

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