MANDERLAY:


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Original: Idem
País: Dinamarca / Suécia / Holanda / França
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Willem Dafoe, Danny Glover, John Hurt, Chloë Sevigny, Udo Kier, Lauren Bacall, Jeremy Davies e Derrick Odhiambo-Widell.
Duração: 139
Estréia: 11/11/2005
Ano: 2005


Há algo de podre no reino do Tio Sam


Autor: Érico Fuks

Esta é a segunda parte da trilogia iniciada em “Dogville” e, como proposta de coerência, carrega muitos tons do primeiro. O cenário mapeado e teatralizado, a ausência de divisórias, o barulho real sobreposto a uma imagem fictícia de algum elemento marcador de território, tá tudo ali. O filme começa em câmera alta mostrando um mapa estilizado dos Estados Unidos e uma linha pontilhada sendo desenhada sobre ele. Câmera se aproxima da linha, até se perceber que cada um destes traços, na verdade, é uma carroça.

Narrado em off como se fosse um conto de fadas, com trilha à base de arautos e alaúdes ao invés de guitarras e sintetizadores pra deixar a coisa mais irônica, o filme centra-se em Manderlay, Alabama, em 1933, onde uma comunidade isolada vive como se a escravidão não tivesse acabado, 70 anos após a Lei Áurea ianque. Patrões brancos dispõem da vida de seus trabalhadores negros da mesma maneira que há séculos. Quando Grace e seu pai, um poderoso gângster, passam diante dos portões da grande propriedade, recebem o pedido de socorro de uma mulher tentando impedir o chicoteamento de um escravo, Timothy. Chocada com a situação, Grace a atende, com a ajuda dos capangas de seu pai. Manderlay é controlada com mão de ferro por Mam, a velha proprietária. No seu leito de morte, ela pede a Grace que queime o livro que contém a chamada “lei de Mam”, um registro de todas as normas autoritárias que determinam a vida da comunidade. Grace recusa. Com a morte da matriarca, a moça assume o comando, extinguindo a escravidão e instalando uma nova organização social.

Toda a narrativa é fragmentada. Tudo é muito delineado em “Manderlay”. A história é dividida em oito capítulos, a pequena sociedade é classificada em sete categorias, o contexto cênico indica as fronteiras de cada um dos estados unidos norte-americanos. O elemento conectivo, claro, são as conturbadas relações sociais. Embora mantenha seu jeito mezzo dogmático de filmar, com uma pseudo-despreocupação com enquadramentos perfeitos, preferindo o registro torto e nervoso da aldeia, Von Trier repete o jogo de claro-e-escuro de Dogville, mas vai além em seu conteúdo. Aqui tem-se a impressão de que ele aparou as arestas do primeiro, deixando a história mais redonda e com maior fluidez. O impacto cênico é menor, e a vontade de impressionar e colocar seu emblema manipulatório também se acalmaram. Isso não quer dizer que “Manderlay” seja menos sádico. Justamente por fazer os mecanismos funcionarem melhor é que a situação fica mais salgada. Grace é mais justa, colocando questões polêmicas em votação (seria a encenação dos primórdios falsos de uma democracia ridícula?). Todas as ações políticas seguem uma cartilha, mas aí Von Trier encontra seu prato cheio pra detonar a América de Nixon e Bush: pessoas não são movidas a regimentos em algarismos romanos. E aí, deita e rola na sarcástica constatação de que há algo de podre no reino do Tio Sam.

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