DUPLICIDADE:


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Original: Duplicity
País: EUA
Direção: Toni Gilroy
Elenco: Julia Roberts, Clive Owen, Paul Giamatti
Duração: 125 min.
Estréia: 05/06/2009
Ano: 2009


Duplicidade – dá pra se divertir sim


Autor: Cid Nader

Tony Gilroy realmente não é conhecido pela extensão de sua ficha como diretor de filmes de cinema – além desse Duplicidade, havia dirigido “Conduta de Risco”, em 2007. Parece daqueles exemplos típicos de roteiristas – só pra citar, os filmes da trilogia Bourne, por exemplo, entre muitos - que resolve dar um pequeno passeio pelos estúdios arriscando uma sentadinha na cadeira de dono do pedaço. Por esse filme que estréia agora, nota-se que é - sem sombra alguma de dúvida, sem nenhum engano – um roteirista de nascença. E daqueles que gostam de roteiros intrincados, cheios de sub-tramas, reviravoltas ação: muita ação (que não me neguem os Bourne).

Nem vou esticar, só citar, uma discussão bastante pertinente a modos de ver e entender cinema, que refere a pensá-lo como a arte da imagem (da decupagem, da edição) antes de tudo, e acima do roteiro – não entendo o roteiro como a alma desse negócio (há uma corrente das mais respeitáveis com a qual me uno nessa idéia), a ponto de saber de grandes (enormes) obras que prescindiram dele para eternizarem-se como inquestionáveis. E se cito isso é porque acaba me chamando bastante a atenção o rigor e dedicação roteirísticos empregados por Gilroy no filme, e o resultado, sem dúvida, bastante interessante obtido a partir daí.

Quando se vê os espiões industriais Claire Stenwick (Julia Roberts) e Ray Coval (Clive Owen) desfilando mundo afora durante as idas e vindas temporais do filme, nota-se que há excesso de informações, de “enganações” (no bom sentido), de dualidades, de “disse mas não era isso, portanto não acreditem”, de flash-backs esclarecedores, de ações vertiginosas, enfim, tudo que um roteiro bem equilibrado e imaginativo pode conceber e emprestar com atrativo, mas nada de imagens vertiginosas, ângulos belos, cortes sagazes, ou sequer atenção um pouco maior às belezas dos locais peregrinados. Nota-se durante todo o trajeto da película que o que se passa na tela é muito fruto de roteiro e de quem sabe trabalhar com ele acima de tudo.

Portanto, se o que interessa são aqueles filmes de ação e romance – há bastante paixão entre o casal central, idealizada de modo bem convincente e interpretada com sintonia epidérmica bastante evidente -, com segredos e jeitos imaginados para desvendá-lo, este é uma boa atração. O diretor não se fixou demais a outras possibilidades de confecção cinematográfica que não as que um bom roteiro, e criou uma trama de espionagem industrial que transgride o tempo linear. Há muita imaginação na cena inicial – talvez a que mais se pareça com o cinema de matiz imagética -, filmada à distância, sob chuva fina, quando ocorre um entrevero impensável e inimaginável entre dois grandes industriais, interpretados por Tom Wilkinson e, genialmente, por Paul Giamatti. Como há muita imaginação na sequencia da história que oporá o casal de espiões, mas não dentro dos padrões imaginados de antagonismo necessário imaginado pelos seus contratantes. Ou sim?

Todo construído sobre pilares que incitam à dúvida - mesmo após algumas certezas terem sido “descobertas” -, não se poderia dizer que seja uma novidade ilusória total, mas dá para dizer que é bastante competente dentro do que se propõe jogar. Não chega a ser tão dinâmico quanto os filmes “Bourne”, e aí reside as diferença: as tramas mirabolantes são da mesma matiz (se bem que não tão perigosas “mundialmente”), a imaginação está toda lá, mas o esforço na maneira de dirigir segmenta cada “filme em seu quadrado”. Cada diretor com sua origem. De qualquer modo, uma boa diversão.

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