A MULHER INVISÍVEL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cláudio Torres
Elenco: Selton Mello, Luana Piovani, Maria Manoella, Vladimir Brichta, Fernanda Torres, Paulo Betti, Lúcio Mauro
Duração: 105 min.
Estréia: 05/06/2009
Ano: 2009


"A Mulher Invisível" – desta vez, Selton Mello bem aproveitado e dando show


Autor: Cid Nader

Tenho uma certa precaução quando sei que vou cruzar com filme originado nas sinuosidades da “Conspiração Filmes” - apesar de achar bem interessante o “Redentor” (2004), dirigido pelo mesmo Cláudio Torres que dirige esse A Mulher Invisível -: não gosto dos discursos saídos lá de dentro, que sempre e sempre “arrotam” arrogância e superioridade imaginativa, nunca e nunca se concretizam na prática na tela, não vemos como obra concluída. Fiquei muito mais precavido ainda quando percebi a associação da produção à “Globo Filmes”: tenho dito em várias ocasiões o quanto desgosto da ingerência estrutural nos filmes da produtora platinada, que procura distanciar os seus produtos cinematográficos das linguagens mais apropriadas ao veículo, direcionando-os ao caminho bem mais simplificado e “malandramente” fáceis que o veículo televisão exige e entrega – como que querendo crer numa burrice imaginada do público, e na não possibilidade de agradar com as possibilidades que o cinema criou e imaginou.

Continuando nos quesitos desconfianças ante o produto, aqui no site, internamente, aconteceu uma discussão bastante ampla, e que se amplificou a mil discussões paralelas, surgida sobre um questionamento que indicava (supunha) uma acomodação de nossa cinematografia recente (aquela que tem angariado as maiores bilheterias) ante a possibilidade de se faturar com produções que representariam a classe média carioca, vista com superficialidade e propícia a servir de mote para arrancar risos fáceis. Questionou-se a origem de nosso melhor cinema (quase sempre brotada dos nossos cafundós abandonados: mas nem sempre, e isso é importante saber) e os caminhos que tais produções estariam indicando como os “únicos” a serem percorridos por quem ainda imagine faturar financeiramente com a arte aqui no Brasil. Pois bem, A Mulher Invisível se insinuava com um produto típico dessa linhagem – e até se revelou como tal mesmo.

Ressabiado por ressabiado: a presença de Luana Piovani (aqui como Amanda) e sua sexualidade estonteante como possível gancho gratuito, ou os maneirismos repetidos de Selton Mello (Pedro, um controlador de tráfego abandonado pela mulher) no seu modo de atuação. Sim, eles também me fizeram tentar “antever” um desastre que parecia inevitável, muito por conta de suas muitas gêneses contaminadas.

Pois bem, filme visto e um monte das desconfianças jogadas no lixo. Mesmo já sabendo de ante-mão – por conversas com quem viu, por reações de listas de discussões – que uma saraivada de “maus” tiros receberá o filme, vou me colocar na posição de quem o recomendaria para quem está com vontade de dar boas e sinceras risadas. Vale lembrar que entre os “mitos” caídos, se salva, e bem, a utilização de Luana como o símbolo sexual desejado e desejável – dentro do que se poderia esperar dela, e com a esperteza do diretor sabendo que seu forte mesmo está na sua imagem e numa composição “ingênua” entre corpo e sorriso rasgado. Vale lembrar que, entre o que não era mito, se sai extremante bem a atriz Maria Manoela – vinda de trabalhos mais “dramáticos”, digamos assim -, com seu jeito mais cool, introspectivo, e que dentro de uma “trama galhofa” é responsável pelo contra-peso entre comicidade pura e ingenuidade romântica (sim, o filme é também um produto similar aos produtos românticos de estirpe hollywoodiana – no melhor dos sentidos), sonho/desejo e realidade.

Entre mitos desmantelados e certezas concretizadas, o que, realmente, acaba se caracterizando como o grande trunfo do filme, a grande sacada, o resultado inquestionável, é a atuação “repetida” de trejeitos e sorrisos irônicos (um tanto sarcásticos) do Selton Mello. Se Cláudio Torres pensou no filme como obra que exigia a presença de Luana, Selton é o grande responsável pelo ritmo obtido – dentro do campo das atuações, que acaba avalizando toda a dinâmica narrativa. Ele domina o ambiente e a tela. Há segurança nos seus atos – diria que há muito da repetição do que ele tem feito ultimamente -, e o fato de se perceber “ele” de sempre no filme, resulta numa desmistificação sobre cacoetes e macetes. Se ele é ator que sabe interpretar com alguns mecanismos que se repetem, cabe ao papel escolhido e à sagacidade do diretor saber aproveitá-lo dentro “desses conformes”. Aqui, a química deu uma baita liga e o filme se beneficia bastante disso. Mesmo percebendo-se a similaridade com comédias românticas americanas, mesmo se capturando algo de denso numa camada inconsciente que pode levar ao desejo incontrolado com reações complexas (quando ele se recolhe e enclausura no apartamento), o principal mesmo está na atuação de um ator que resolveu dar showzinho.

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