CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcelo Gomes
Elenco: Peter Kenath, João Miguel, Hermila Guedes e Mano Fialho.
Duração: 99 min.
Estréia: 11/11/2005
Ano: 2005


"Cinema, Aspirinas e Urubus": habemus cinema


Autor: Cid Nader

É muito bom ver o bom cinema brasileiro representado na tela. A agradável surpresa da vez - talvez não tão surpresa assim, pelo passado como roteirista e curta-metragista - é o diretor Marcelo Gomes, com seu muito bem realizado, "Cinema, Aspirina e Urubus". Passa-se no sertão nordestino, em 1942, durante a II Guerra Mundial, por onde viaja um alemão, Johan (Peter Kenath), como representante da Bayer, vendendo de maneira engenhosa o famoso remédio para dor de cabeça - leva consigo uma tela e um projetor de cinema, e em cada parada exibe documentários, sobre a pujança de São Paulo, por exemplo, e também pequenos filmes publicitários sobre o seu produto. No caminho, dá carona a várias pessoas, mas entra em cena Ranulpho (João Miguel), que passa a acompanhá-lo e ajudá-lo, por uma compensação monetária, já que seu objetivo é fugir daquela pobreza para o Rio de Janeiro.

O filme é primorosamente bem fotografado, com luz "estourada", recurso usado com habilidade e pertinência, aqui sem o apelo do modismo, pois tem função vital por nos transportar ao sertão nordestino conseguindo o efeito da sensação de calor infernal - angustiante, sufocante - e interminável. Num certo momento bem no início o diretor consegue criar um "meta-cinema", quando de dentro do caminhãozinho, através do pára-brisa, cria uma pequena tela de cinema que transmite imagens áridas, com um azulíssimo céu azul fazendo o papel de pano de fundo, num momento de inspiração que demonstra que - provavelmente - estamos diante de alguém que veio para ficar, que tem o que e como dizer.

Num outro momento, ainda dentro do veículo, dá um espetáculo à parte, quando - sem cortes - acompanha todo o deslocar do personagem ariano, desde a parte de trás do veículo, filmando por entre as janelas, em espaço acanhado, com perícia - sem excessos no tremer - até a sua entrada pela porta da frente. O diretor fala de preconceitos, invertendo o clichê, e criando um nordestino que fala mal, o tempo todo, de seus conterrâneos - numa interpretação super-bacana e cheia de nuances de João Miguel, que comparece com um trabalho elaborado, manhoso, longe de qualquer tipo de vícios - coisa comum quando o assunto é nordeste, pelo seu forte apelo pitoresco. Há um momento, dentro da cabine, quando sentados no banco dianteiro, Ranulpho, uma mulher que pede carona e Johan, que o simples gestual de movimentar-se para frente e para trás do nordestino, na tentativa de chamar para si a atenção da carona, e o seu semblante no desfecho da cena, já seriam dignos de nota especial. E especial, também, é a criação de um personagem, um alemão - em tempo de guerra - pacifista, que foge do conflito - que atravessa o oceano e bate na orla nordestina (não, não é o momento de se discutir a real origem das bombas que afundaram navios na nossa costa) - incutindo dúvidas e medo no porvir. É uma história sobre o descobrimento do real significado da amizade, de pessoas amarguradas, que por isso mesmo se acobertam com um manto de falsa esperteza, apesar da alma que pede companhia e compreensão.

É momento de torcermos, com vontade, para que Marcelo Gomes seja a mais pura realidade.
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