ADAGIO SOSTENUTO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Pompeu Aguiar
Elenco: Dedina Bernardelli, Priscila Rozenbaum, Alexandre Borges.
Duração: 104 min.
Estréia: 29/05/2009
Ano: 2009


Lento e sustentado


Autor: Laura Carvalho

Uma diretora de cinema discute o roteiro elaborado por seu marido. Entre eles, a câmera que registra o acontecimento. Anna (Dedina Bernardelli) observa os papéis que estão sobre a mesa, as anotações, os livros e as partituras que serviram de referência para seu marido José (Alexandre Borges) elaborar a cena final do longa-metragem, momento em que um casal de professores aposentados comete suicídio defronte ao mar. Ela desconfia da premissa de que a obra representa a extensão dos sentimentos dos dois amantes, indaga seu marido se a câmera deve subir em direção ao céu após o trágico acontecimento, como representando a eternidade do sentimento.

O movimento lento e sustentado, que significa o título do filme, determina o caráter das cenas, assim como essas se revelam como o movimento de apreensão de Anna frente aos acontecimentos de sua vida, mas sem os recursos usuais de subjetivas e sim pela opção de Pompeu Aguiar em não filmar os contra-campos.

Para quem duvida da eternidade dos sentimentos, tal como a cena do suicídio pretende resumir, somente a morte na vida de Anna pode colocar sua desconfiança em cheque. Assim, a trajetória solitária da protagonista confirma aquilo que seu marido pretendeu dizer com a cena final. Pompeu Aguiar reitera o aspecto de transposição dos sentimentos para obra e vice-versa, numa relação entre quem sente: Anna, José, o casal de professores. Ele, o diretor, se coloca como observador dessas relações.

Sendo um filme sobre os sentimentos, o mar incessante, a observação cuidadosa de Anna do material de José sobre a mesa, são cenas que se reiteram ao longo da obra, muitas delas utilizadas em planos longuíssimos, mas em cada momento a conotação é diferente, pois o ritmo do filme, o adagio sostenuto, cria uma progressão narrativa, que é a progressão dos sentimentos de Anna: da placidez calma do amor, da perda, da angústia. Às vezes nos sentimos cansados de tanta irrupção poética – as cenas que contemplam a beleza do mar, as falas pausadas e demarcadas, o rosto em primeiro plano de Anna, as referências literárias e musicais. Pompeu Aguiar, notadamente através de mais uma citação, nos coloca a devolutiva de que o mundo dos sentimentos convive com o mundo da brutalidade: “nasceram numa época de luz e trevas”. A luz, obviamente pode ser o amor, do casal de velhinhos ou entre Anna e José. As trevas, a morte brutal no Rio de Janeiro contemporâneo.

Paciência, se não estamos acostumados em presenciarmos nos filmes brasileiros tamanho empenho na criação, um paralelo que podemos estabelecer com Via Láctea, de Lina Chamie, possivelmente Adagio Sostenuto, em seu grande esforço de se afirmar através da forma demasiadamente elaborada, pode representar uma outra maneira de reavaliar o mundo bruto onde vivemos, sem recorrrer, no entanto, aos clichês da imagem violenta.

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