GARAPA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: José Padilha
Elenco: Documentário
Duração: 110 min.
Estréia: 29/05/2009
Ano: 2009


“Garapa” e os limites entre registro e espetáculo


Autor: Fernando Oriente

O novo longa de José Padilha, “Garapa”, chega acompanhado de uma discussão inevitável: quais os limites da estetização da miséria e como lidar com o dilema entre expor o sofrimento humano e a fetichização da imagem. Padilha é um cineasta com inegável habilidade para captar temas e tensões presentes no espaço público e que reverberam no inconsciente coletivo da sociedade brasileira. Seu cinema é centrado nos conflitos de classes, na degradação e aviltamento das individualidades e na presença e ausência do Estado dentro da estrutura cotidiana do país. Em “Ônibus 174”, o diretor faz um registro das três partes (seqüestrador, vítima e polícia) envolvidas em uma tragédia tornada espetáculo pela mídia. Já em “Tropa de Elite”, Padilha constrói uma narrativa centrada na subjetividade de um personagem (agente da superestrutura do Estado, dentro do conceito marxista) à beira do abismo e sua cruzada moral e reacionária contra os mecanismos sólidos de um poder criminoso que há anos fugiu do controle dos falidos mecanismos legais brasileiros. Ao mesmo tempo, “Tropa” constrói a trajetória de um herói, o jovem Matias, que a se ver (dentro de sua subjetividade limitada, realçada pelo discurso de Padilha) impossibilitado de tornar-se advogado (e ser policial, negro e pobre ao mesmo tempo), assume de vez a postura fascista que caracteriza os “heróis da classe média” que são os agentes do Bope no longa. É justo retificar uma postura facistóide para fazer um “herói” dos nossos tempos?

A questão da exploração imagética da violência, do tornar o caos e a destruição física e psicológica do ser humano em produto de consumo é profundamente complexa. É possível mostrar, na ficção ou no documentário, a decomposição individual e coletiva sem se tornar um agente diluidor da realidade desses conflitos e da complexidade da miséria? Essas questões estão no centro de “Garapa”. José Padilha registra o cotidiano de três famílias cearenses e sua luta (derrota) contra a miséria e a fome. São imagens terríveis de uma realidade absurda, mas verdadeira. “Garapa” é um registro do horror em estado bruto, suas imagens são de uma crueldade raras vezes vistas no cinema. A fome e a desnutrição são flagelos que assolam o povo brasileiro (nordestino principalmente) desde sua constituição, como aborda com clareza Darcy Ribeiro em seus livros. É quase impossível para um público de classe média (os freqüentadores de cinema do país) compreender a que ponto chega a pobreza e a degradação humana. As imagens de “Garapa’ mostram crianças desnutridas, com o corpo cravejado de feridas e semblantes de dor, dividindo a tela com adultos apáticos pela impossibilidade de fazer qualquer coisa que seja para romper com a desgraça de suas vidas. São tipos que se arrastam no limite da sobrevivência e que sabem que não existe escapatória para o inferno a que estão condenados. “Garapa” tem como pano de fundo algumas ações sociais do governo Lula, que embora sejam emergenciais e de suma importância para que essas pessoas não morram ainda mais cedo, são incapazes de acabar com o problema. Ao mostrar essa realidade, Padilha não oferece soluções, apenas registra um estado de coisas que deve ser enfrentado de maneira muito mais agressiva.

Mas é aí que entra uma discussão complexa que envolve o cinema como um todo e, torna-se, no documentário, ainda mais problemática. Jacques Aumont afirma que todo filme é um filme de ficção, ao mesmo tempo em que Godard tornou célebre a frase “Nenhuma imagem é inocente”. Aumont argumenta que no cinema, representantes e representados são ambos fictícios. “O espectador de um documentário não se comporta diferente de um espectador de um filme de ficção, pois o filme não é realidade e, nessa qualidade, permite o recuo diante de qualquer ato, de qualquer conduta”. Com essa proposição, Aumont conclui que, também no documentário, o público está inserido no espetáculo e, chama atenção para o caráter sempre presente no filme documental da preocupação estética, que, segundo ele, nunca está ausente desse gênero cinematográfico. Essa preocupação transforma sempre os objetos e as situações em produtos de contemplação, um processo que aproxima o espectador de seu imaginário particular e o impossibilita de entrar em contato direto com o que é retratado na tela.

Dentro desses postulados e voltando à “Garapa”, é necessário questionar a opção pela fotografia e a captação em preto e branco. As imagens da desgraça muitas vezes são filtradas por meio da beleza formal dessas escolhas estéticas. Mesmo sem querer assumir as decisões do cineasta, é inevitável não se perguntar se um registro mais naturalista (feito em cores com uma câmera digital, por exemplo) não seria uma forma mais objetiva e sincera de captar essa realidade. Provavelmente, Padilha tenha optado, por meio do deslocamento, em promover uma translação da recepção imediata da crueldade das imagens (diluindo o impacto real das cenas) para uma reflexão mais aberta da miséria em que milhões de brasileiros vivem. Essa opção pode ser útil para se conduzir o debate para um contexto maior e mais universalista (dissolvendo a violência isolada das cenas) e que não ficaria restrito ao que está ligado apenas as sequências do longa. Seria uma solução formalista para evitar que as imagens de “Garapa” se transformassem em registros crus. É uma maneira de assumir que aquele horror todo é registrado com mecanismos claramente cinematográficos. É explicitar o aspecto de imagens construídas, é deixar claro ao público que ele está diante de um filme.

No dia a dia do Brasil, as repercussões dessa miséria silenciosa (que quando aparece é sempre filtrada por discursos piegas ou oportunistas de pessoas que lucram de uma forma ou de outra com a desgraça) são aliviadas por campanhas assistencialistas ou tentativas limitadas de se combater de forma superficial um problema que exige mudanças radicais na estrutura político-econômica e social do país. A televisão e o cinema de mercado (cada vez mais forte no Brasil) usam o sofrimento e as possibilidades estéticas desse sofrimento para aumentarem a audiência e os lucros na bilheteria. Expor com pieguice um sofrimento que não é nosso tem repercussões catárticas no espectador comum, que se emociona com a dor alheia ao mesmo tempo em que se sente bem por não fazer parte desse mundo desesperador.

Esse processo está enraizado na nossa sociedade e romper com essa exploração estética da miséria é uma tarefa para lá de complexa. José Padilha não pode ser culpado em por abordar os temas que aborda. O diretor está muito distante dos charlatões da imagem que comandam a indústria cultural e sua retórica é sincera, por mais que use elementos dessa espetacularização da miséria. Podemos criticá-lo por algumas escolhas, mas seu cinema sempre levanta discussões relevantes e procura mostrar problemas que não podem ser escondidos.

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"Garapa" beira precipícios estéticos, e sobre a dignidade humana.