BUDAPESTE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil/Portugal/Hungira
Direção: Walter Carvalho
Elenco: Leonardo Medeiros, Gabriella Hármoni, Giovanna Antonelli
Duração: 113 min.
Estréia: 22/05/2009
Ano: 2009


Budapeste: a criação e a arte narrativa


Autor: Marcelo Lyra

Budapeste, de Walter Carvalho, baseado no livro homônimo de Chico Buarque, traz à baila a eterna (e infrutífera) discussão sobre se um filme deve ser fiel ao livro que lhe deu origem. Antes de iniciar qualquer discussão, deixo claro que acredito que traduzir um texto literário para uma obra audiovisual é uma recriação e o diretor/roteirista tem toda liberdade para ser fiel ou infiel. A única obrigação é que o filme seja bom. Por trabalhar um livro conhecido, a questão ganha mais corpo e é abordada no filme, quando um personagem afirma que uma canção pode adaptar uma poesia e uma pintura pode adaptar uma foto. O que se discute são os caminhos possíveis entre transposições.

Assim, este filme é uma transposição para imagens tão fiel quanto possível e tão infiel quanto necessária. O livro de Chico Buarque é uma complexa discussão sobre língua, literatura, autoria e paixão, com muitas questões filosóficas difíceis de se traduzir por imagens. O filme de Walter Carvalho, por seu turno, embora aborde as mesmas questões, centra seu foco na questão do autor, da autoralidade.

O personagem principal, José Costa (Leonardo Medeiros, que decorou todas as suas falas em húngaro), escreve livros para outras pessoas. Invariavelmente os livros fazem enorme sucesso, mas quem leva a fama são os outros. Há uma cena muito emblemática, onde ele fura a fila de autógrafos do pseudo-autor de seu livro. O artista precisa abrir espaço, enquanto o picareta brilha à luz dos holofotes. Ele está desanimado e desiludido, mas tudo muda quando seu vôo faz uma parada forçada na cidade de Budapeste e ele, fascinado pelo lugar, decide permanecer mais tempo por lá, conhecendo Kriska (a ótima húngara Gabriela Hámori), que o faz retomar a pulsão criativa.

É significativo que o diretor seja Walter Carvalho, ele mesmo um criador muito atuante, um parceiro dos diretores com quem na fotografia. Só para ficar claro, Walter é talvez o mais importante diretor de fotografia brasileiro, campeão de prêmios por festivais de cinema pelo Brasil. De vez em quando arrisca-se a co-dirigir (Cazuza, Janela da Alma), e esta é sua estréia como diretor de ficção. Quase todos os diretores com quem conversei (nomes como Ruy Guerra e Walter Salles) são unânimes em afirmar que Walter encontra soluções visuais muito criativas (houve quem dissesse incríveis) em momentos onde não parece haver solução. Como a maioria do público nem sabe o que é um diretor de fotografia, é natural que algumas vezes os diretores levassem a fama por idéias de Carvalho. Assim, a identificação de Walter com Costa é quase natural. Essa questão é tão importante que Orson Welles fez questão de colocar o nome do fotógrafo Greg Tolland na mesma cartela que o seu, em reconhecimento à importância da criatividade desse gênio da luz e da profundidade do filme Cidadão Kane.

Curiosamente, Budapeste é um projeto pessoal da produtora e roteirista Rita Buzzar. Walter não colaborou no roteiro, mas, segundo informações da equipe, mudou muita coisa na hora de filmar. A estátua do autor desconhecido, por exemplo, imagem recorrente no filme, simplesmente não existe no livro e nem no roteiro. Foi idéia de Walter e é síntese visual do autor anônimo, cujo rosto não se vê, mas cria.

O filme também acrescenta uma carga de erotismo visual que no livro é bem menos intensa, o que expõe a influência da pintura clássica na obra de Carvalho. Há uma cena em que Giovanna Antonelli está nua num divã, que remete a diversas referências renascentistas. O uso da profundidade e certos momentos de luz lembram muito alguns quadros de Vermeer. A luz do filme tende para o amarelo, mas isso se deve à afirmação, de Chico Buarque, que Budapeste é amarela. Mas é um amarelo flutuante, que se adapta camaleonicamente a momentos que variam do tenso ao apaixonado. A idéia da mulher e do amor como inspiração encontra poética tradução na figura do autor escrevendo no corpo nu. A bem da verdade essa boa idéia é repetida um tanto a mais, mas isso não chega a tirar o brilho.

A cena inicial dá a pista do que será o filme. Costa está caminhando ao fundo, mas o foco está em primeiro plano. Ele é uma figura totalmente embaçada e vem caminhando aos poucos para o foco, como a anunciar que idéias esmaecidas sobre o processo criativo, a arte de narrar e a autoralidade irão ganhando mais definição à medida em que o espectador se abre para a estrutura do filme. O prazer em assistir Budapeste será proporcional a essa capacidade de se abrir para suas belas imagens e interessante discussão.

Leia também: