SIMONAL - NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.
Elenco: Documentário
Duração: 86 min.
Estréia: 15/05/2009
Ano: 2008


Sobre perdoar


Autor: Cid Nader

Que Wilson Simonal foi um dos grandes fenômenos de nossa história recente cultural é fato reconhecido por quem quer que tenha qualquer tipo de acesso a informações musicais ou políticas. Negro e muito mais "suingado" do que preconizava o momento da década de 60, quando outros negros surgiram como ídolos da nação – negros que se comportavam de forma muito mais “família", muito mais dentro dos padrões sociais, muito mais dentro do se que exigia como paridade de comportamento ao que sempre executaram os brancos nas maneiras de condutas a serem copiadas para se ser bem aceito dentro da esfera "normal" e dominante -, o cantor carioca, que tinha uma voz espetacular e cheia de modulações variadas, sempre incomodou por suas atitudes tidas como “arrogantes”. Neste trabalho sobre a vida dele, feito para o cinema, percebe-se que ele tentava exercer – na realidade conseguia – o domínio sobre platéias basicamente brancas como algo "subliminado" por sorrisinho irônicos e debochadores.

Não foi figura fácil, mas também não negou a raça. Andou sempre na contramão do discurso político contestador oficial da grande intelectualidade, mas sempre exerceu de modo particular essas contestações. O documentário é exemplar nesse desvendar de uma pessoa que surgiu muito pobre e alcançou a maior das famas "populares". O modo escolhido para contar esta passagem, da pobreza ao estrelato, não é didática e sim construída com depoimentos e imagens diversos que têm de ser construídos (nada complexo não) pelo espectador. Mas o avançar da história contada vai revelando um documentário bem feito, que vai desvendando, por sua vez, a figura do cantor, do apogeu ao inferno. De maneira até linear. O que serve para invalidar uma quase teoria minha de que documentários necessitam demais de alterações rítmicas e na construção para se fazerem peças imprescindíveis. A própria história do cantor já o faz grande.

Muitos depoimentos e muitas imagens de arquivo (sorte retratar figuras da mídia na hora de arranjar imagens de arquivo). A glória do cantor, no início, nos remete a momentos de riso e admiração pura. O final, que conta a razão de sua descida ao inferno, transtorna muito, a princípio. E a idéia dos realizadores em não tornar o filme somente chapa branca – se bem que, mesmo se fosse, trataria de assunto espinhoso e complexo demais – se faz seu melhor momento, seu melhor achado: quando os documentaristas vêm a São Paulo em busca da figura chave do ex-contador de Simonal e lhe dão voz, o filme toma o rumo da discussão sobre o que é a verdadeira "condição humana". Na dúvida imposta – uma certeza, na realidade – percebe-se o quanto um ser tem que pagar por ter pecado minimamente. A revelação que sobra é a de que nem sempre exercemos o humanismo propalado aos ventos – e no caso, esse não cumprimento veio da parte de artistas e cultos -, quando não possibilitamos a chance da regeneração a alguém que “errou”. Pela entrevista com o contador, percebe-se que ele errou, mas era um outro erro; diferente do que o levou à lenta morte do esquecimento, da não chance; sempre merecedor do "perdão". E termina, assim, um filme muito triste.

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