DESEJO E PERIGO:


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Original: Se, jie/Lust, Caution
País: EUA/China
Direção: Ang Lee
Elenco: Tony Leung Chiu Wai, Tang Wei, Joan Chen, Wang Lee-Hom
Duração: 157 min.
Estréia: 15/05/2009
Ano: 2007


Ótimas cenas em meio à influência da Hollywood clássica


Autor: Fernando Oriente

Ang Lee é o cineasta asiático que mais carrega influências do cinema norte americano. Não por acaso, realizou algum de seus principais filmes por lá. Seus longas que primeiro chamaram a atenção são bem limitados, como “Banquete de Casamento” e “Comer, Beber, Viver”, rodados na primeira metade dos anos 90, ainda na Ásia. Foi exatamente sua migração para território estadunidense que elevou a qualidade de seus filmes, com obras mais razoáveis como “Razão e Sensibilidade”, “Tempestade de Gelo” e “Hulk”. Sua volta a Hong Kong foi um retrocesso, com o chatíssimo ”O Tigre e o Dragão” (2000). Mas em 2005, de volta aos Estados Unidos, Lee realizou aquele que é sem dúvida o seu melhor trabalho, “O Segredo de Brokeback Montain”, que lhe rendeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Dois anos depois, o cineasta voltou à Veneza e levou mais uma vez o prêmio máximo, desta vez com “Desejo e Perigo”, que apenas agora chega as telas do Brasil.

Rodado na China, com um grande orçamento, “Desejo e Perigo” mantém o alto nível de “Brokeback Monatain” e confirma que Ang Lee é um cineasta em processo de amadurecimento, que a cada filme consolida mais seu talento como diretor de boas cenas e, ao mesmo tempo, assume de vez sua capacidade de aglutinar de forma positiva suas influências do bom cinema americano. O longa tem sua estrutura toda calcada na narrativa, no impacto das cenas e na força da história que é contada por meio de um flashback inicial e duas grandes elipses. Desse vigor narrativo, Lee retira fortes doses de emoção, principalmente na complexidade da relação entre os dois personagens centrais, e ainda encontra espaço para tecer comentários políticos. Além disso, o cineasta constrói uma tensão sexual extrema, que simboliza todo um jogo de poder que transcende os papéis dos amantes para atingir proporções representacionais mais sofisticadas.

A força do filme começa por sua personagem central, Wong Chia Chi, interpretada de forma magistral e corajosa por Wei Tang. A jovem, que envolve-se com a resistência chinesa à ocupação do seu país pelo Japão na Segunda Guerra, é um tipo dramático riquíssimo, que vai da fragilidade e da inocência à coragem e ao amadurecimento de forma intensa e bem desenvolvida por Ang Lee. As situações pelas quais passa, a tensão e a carga emocional dos acontecimentos por ela vividos são construídas de forma complexa e suas limitações e angústias são expostas com muita densidade e sensibilidade. A jovem simples e retraída, de uma hora para outra, transforma-se em uma mulher sedutora e confiante, sem deixar em nenhum momento de transparecer suas inquietudes e inseguranças. Só por essa personagem, o filme já valeria ser visto, mas as qualidades de “Desejo e Perigo” não param por aqui.

A influência do cinema americano dos anos 30 e 40 (época da Hollywood clássica) marca presença em todo o filme. Seja na beleza calculada das imagens, na composição clássica do quadro, no bom trabalho com o ritmo ou na própria mistura de drama e suspense, Ang Lee assume seu apreço pelo cinema hollywoodiano e, embora trabalhe com situações comuns e temas muitas vezes já vistos, consegue tirar força e sinceridade de seu discurso estético. Essa força está na emoção das situações em si, na dramaturgia e no poder das imagens.

“Desejo e Perigo” é um filme que vai a crescente, melhorando ao longo de suas duas horas e meia de projeção e, embora tenha nos minutos finais uma diluição de seu impacto, reserva ótimas cenas. A sequência onde Wong Chia Chi seduz e é seduzida por Yee (o colaboracionista da qual ela tem de tornar-se amante) é enaltecida pela precisa decupagem do cineasta, construída em campos e contra-campos e ressaltada pelo excelente trabalho de luz na fotografia. Mais um ponto alto do longa é a passagem em que a protagonista, prestes a consumar o processo de sedução de sua vítima, é obrigada perder a virgindade com um companheiro de resistência para poder “interpretar” bem o papel de amante. Outra cena ilustra bem o talento de Ang Lee: o assassinato de um colaboracionista, executado por vários dos jovens membros do grupo de Wong, é muito bem filmado e a tensão e a dramaticidade da brutalidade estão presentes em cada plano, ampliadas pela mis-en-scene.

Finalmente chegamos às cenas de sexo. Ponto alto de “Desejo e Perigo”, fundamentais dentro da proposta do filme, são sequências de grande impacto. Todo um jogo de sentimentos ambíguos e as bases do relacionamento de Wong e Yee (Tony Leung em mais uma ótima atuação) são explicitados nestas cenas. São imagens viscerais, passionais e intensas. Filmado com objetividade e sem pudores por Ang Lee, o sexo entre os amantes é violento e representa a relação de submissão e dominação entre os dois. O diretor fecha a câmera nos rosto de seus protagonistas e retira de suas expressões de êxtase e dor uma infinidade de sentimentos e emoções, além de ressaltar o furor passional com que se atiram uma ao outro. Cenas de sexo como essas são muito bem vindas no atual momento pudico que vive o cinema de forma geral, em que ou não se mostra nada ou se constrói imagens artificialistas de sexo asséptico e dissimulado.

A dominação de Yee e a submissão Wong (e vice e versa) vão determinar de maneira fundamental as ações da jovem na conclusão do filme. Essa postura que a protagonista irá assumir é mais uma característica do cinema clássico de Hollywood usada por Lee: a heroína que já se encontra ciente de sua condenação desde o início do filme e que será incapaz de mudar seu destino trágico. A dominação e a submissão entre os personagens centrais são exatamente as mesmas que Ang Lee vê na relação entre China e Japão, situação que durou muito tempo e só foi rompida com a Revolução de 1949 liderada por Mao. “Desejo e Perigo” é um filme construído em moldes clássicos, realizado por um cineasta que dirige cada vez melhor e interpretado por um casal de protagonistas precioso. Tem personagens fortes e intensidade dramática. Pode não ser original nem brilhante, mas é cinema de primeira, direto e sofisticado ao mesmo tempo.

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