MARCAS DA VIOLÊNCIA:


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Original: A History of Violence
País: EUA
Direção: David Cronemberg
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk e Sumela Kay.
Duração: 96
Estréia: 11/11/2005
Ano: 2005


"Marcas da Violência": o mais humano anseio


Autor: Cid Nader

Um dos pilares do humanismo é a crença no arrependimento, a possibilidade da segunda chance.

Entre os maiores, mais simples e acalentados sonhos do homem: é o poder retornar ao lar, o jantar com a família, a segurança e a paz que remete ao período intrauterino.

Nos Estados Unidos, viver em uma cidade pequena, longe da balbúrdia e do reconhecimento, com milharais compondo a paisagem, são sinais absolutamente reconhecíveis do almejado sonho americano.

Frank Capra pautou toda a sua carreira com obras que acreditavam na - mais do que isso, incentivavam - possibilidade da redenção humana, no final feliz, no lar como máxima de realização. Associar alguma obra de Cronemberg a qualquer trabalho do comportadíssimo Capra, pareceria um sinal de final dos tempos - senão tanto, uma amalucada avaliação por parte de quem vos escreve.
Já David Cronenberg, diretor canadense é classificado por muitos como autor de obras excêntricas, esquisitas e esdrúxulas, e normalmente é comparado - aí com uma certa lógica, apesar de imaginá-los diferentes em suas "loucuras" - ao norte-americano David Lynch. Apesar da insistente comparação ao longo da carreira, somente agora, aqui, nesse seu novo filme, é possível detectar o momento mais próximo de aceitação de uma possível similaridade – no meu modo de entender. Mais especificamente ainda, imagino ser, “Marcas da Violência”, um irmão, um parceiro de afinidades de “História Real”, de Lynch. São filmes que falam - ou evitam falar - de passados a serem esquecidos, que buscam a um dado momento a estrada como ponte de ligação, de solução, de reencontros fraternais - nem sempre no sentido mais cristão do termo - e alternativa de volta à almejada paz.

Mesmo assim, não deixa de ser um típico produto de Cronenberg, que conduz a trama, em meio a momentos da mais “pura” violência e crueldade, de maneira fluida e tranqüila, embalada por música idílica. Pareceria absurdo imaginar tais conjugações – violência, tranqüilidade, idílio – mas é o que ele consegue, fazendo desse um momento único em sua carreira. Não único por se tratar de obra genial – já que fez outras merecedoras de tal classificação, também –, mas por ser momento em que encontra outras vias para divulgar suas concepções, num fato semelhante ao ocorrido com David Lynch e seu “História Real” (daí a comparação).

O início do filme, seco, "enganador", à beira de uma estrada, com dois personagens de aparência comum - que aliás serão responsáveis pela imprescindível ponte que ligará dois mundos, "duas mesmas" histórias - é de desfecho "cronenberguiano" a toda prova.

A construção inusitada, de ritmo pacífico, que passa a apresentar, aos poucos, surpreendentes personagens que ao dizerem presente mostram suas verdadeiras credenciais; as pessoas e seus olhares, por vezes aéreos; a paixão eterna de Tom Stall por sua mulher; os assassinos que cruzam a história; os moradores da cidade pequena com sua aparente normalidade; todos os elementos desse estranho e belíssimo filme, fazem desse um dos grandes momentos do cinema nesse ano, rivaliza com "Crash", na disputa pela liderança de melhor obra da carreira desse relizador único, que ganha aqui um outro par - Capra - para amalucadas comparações.

P.S.: David Cronenberg sabe, talvez como ninguém, criar cenas de sexo, no qual o prazer é visivelmente multiplicado quando associado ao sofrimento físico.
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