ANJOS E DEMONIOS:


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Original: Angels & Demons
País: EUA
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgård, Nikolaj Lie Kaas, Pierfrancesco Favino
Duração: 140 min.
Estréia: 15/05/2009
Ano: 2009


“Anjos e Demônios” – eu, hein?


Autor: Cid Nader

Ron Howard - o diretor – parece daqueles trabalhadores que adora pegar filmes que farão algum tipo de estardalhaço a mais. Não é ninguém de matiz autoral reconhecível – e não que isto seja um defeito ou algo pejorativo, absolutamente –, nem de filmes defensáveis a qualquer custo. Tenho cá para mim que é diretor que gosta dos holofotes – já vi entrevistas dele “comprando” brigas e debochando “antagonistas” -, e que tem como característica principal, nas suas obras (sem que isso possa ser compreendido como linha autoral), a utilização de “atores de ponta”, dentro da indústria. Tal utilização acaba por fazer com que seus trabalhos atenham sua força principal num modelo de confecção antiquado – da época em que o cinema era sinônimo de astros e estrelas – e, até certo ponto, acomodado.

Dan Brown – o escritor – parece daqueles trabalhadores que encontrou – inventou - um filão literário baseado em estardalhaço bobo, e que gosta de aparecer na mídia por uma confusão a mais. Certo, que anda enchendo o bolso de grana, o moço. Mas tão certo quanto isso é a constatação de que suas obras são fruto de uma tremenda cara-de-pau literária, por conta de um falseamento erudito impostor – deve ter lido Humberto Eco e imaginou ser possível ganhar muito com imitações das mais rasteiras e reles possíveis -, de um alvo fácil e ideal para angariar a simpatia aos seus livros (a Igreja Católica), e de “verdades” impostas que são rebatidas com ironia e esperteza comercial. Já havia escrito, antes, “O Código Da Vinci” e agora, com “Anjos e Demônios”, emplaca sua segunda parceria com o diretor Ron Howard, em busca da “fama”.

Tom Hanks é o mesmo ator, para o mesmo papel (o do simbologista Robert Langdon), nesta espécie de saga aproveitadora que parece apenas estar começando no mundo das artes. O ator resolveu comprar a briga do diretor e do autor, respondendo com sarcasmos conclamações da Igreja para que os fiéis não comparecessem ou assistissem ao filme. Se Hanks topou o estardalhaço por convicções nos dados escritos e imaginados, mal sinal para o que ele representa como um atuante no mundo da cultura – o livro anterior é ruim, o atual não li; o filme anterior é ruim, este novo é péssimo. Se Hanks comprou a briga por posicionamento anticlerical, mais aceitável – só que as ferramentas e o momento utilizado para tal manifestação são de baixíssimo grau para serem associados à imagem de quem resolva se manifestar contra ditames do Vaticano.

A Igreja Católica, a mais atingida pelas histórias, já não bastasse ser alvo fácil de ódio e rejeição de vários setores da sociedade – por posicionamentos históricos errados, por situações específicas de perseguições e equívocos, mesmo em se sabendo que qualquer setor de importância mundial teve seus equívocos e acertos (não há como negar acertos da Igreja, também: a Teologia da Libertação e seu posicionamento ao lado dos perseguidos na América Latina, por exemplo) – ainda age de maneira espalhafatosa, fazendo propaganda contra o filme, sem que alguém de suas filas o tivesse visto ainda. Errou, pois fez propaganda para um filme que a ataca sim, insinua sim, inventa um monte sim, mas, ao final, afaga – como aquele opositor falastrão que desafia o mais forte e poderoso, fala, alardeia e na hora “H” acaba não querendo deixar ressentimentos, por alguns tipos de medos.

O filme? Bem o filme é muito ruim. Soube que teve acolhidas mais elogiosas, em alguns lugares, do que o anterior – bom lembrar que, na realidade, não é uma série assumida. Mas, diante desse, “Código” até consegue ser resgatado com mais “carinho” lá do inconsciente. O fato de reduzir o tempo - para que se solucione o sequestro de cardeais, num momento em que um novo Papa está para ser eleito – a algumas poucas horas de prazo já insinua que a ação será o mote principal da história. O fato é que, o excesso de ação parece estar ali para encobrir os furos de pesquisas que o escritor sempre comete na confecção de seus trabalhos. Os dados são inconsistentes, as soluções das dicas – sim, nestes filmes e livros sempre há “dicas eruditas” a serem desvendadas - são bizarras de tão facilmente elucidadas em períodos exíguos. O que ocorrerá com cada vítima em potencial é quase sempre previsível. Os ataques ao Vaticano e as atitudes manipuladas dos personagens clericais, são em número suficiente para se esperar um final sísmico.

Mas o escritor é malandro e espertalhão. O diretor gosta das luzes da fama. A solução final, que sucede um quase final pra lá de esdrúxulo – quase final que envolve um helicóptero, um padre, a antimatéria -, se faz de revolucionária, de genial, mas não passa de mais um truque espalhafatoso e bobo, como é esta obra escrita filmada.

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