STAR TREK:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: J.J. Abrams
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Simon Pegg, Eric Bana, Karl Urban, Dr. Leonard 'Bones' McCoy, Amanda Grayson, Zoe Saldana
Duração: 126 min.
Estréia: 08/06/2009
Ano: 2009


“Star Trek – O Futuro Começa” – a ficção informal agradece.


Autor: Cid Nader

Diversão da boa este Star Trek – O Futuro Começa. Com uma ainda incipiente carreira no mundo da direção de filmes, J.J. Abrams acertou a mão como raramente tenho visto em filmes de ficção científica que não pretendam dissecar meandros mais ocultos, que não tenham a intenção de interpretar o “lado humano” intrínseco sob a superficialidade das “parafernálias” futuristas ou sob capas e fantasias de super-heróis, que não queiram fazer de cada vírgula ou garrancho um sub-texto de importância vital à condição humana (sob a camuflagem que somente a arte pode utilizar) – se bem que tenho visto grandes trabalhos utilizando esse “escarafunchamento” com resultados dos mais louváveis (os X-Men 1 e 2, o último Super-Homem, o Hulk do Ang Lee, ou o Homem Aranha do Sam Raimi, ente alguns outros). Se bem que “Star Trek” carregue no seu âmago uma coisa relativa a impérios sobrepujando e arrasando, com forças unidas (poderiam ser as forças da ONU comandadas pelo império bélico central, os EUA), países (ops, planetas) discordantes de uma mesmice e que se rebelam à sua maneira (fazendo sua justiça; agindo sob sua lógica; defendendo-se com suas razões): fato que acabou não passando totalmente despercebido e como assunto intocado pelo diretor, mas que também não se tornou peça chave, de resistência, na narrativa central e condutora.

Mas o mais bacana mesmo no filme, o que o sustenta firmemente por todo o período de sua existência na tela branca, é a sua veia ficcional latejando com um bem vindo excesso de ação – mas não o excesso de ação que faz das paredes da sala de cinema um pedaço coisa física propícia para reverberar estouros de bombas, ou o excesso que faça da porrada (com o perdão da utilização da palavra) o meio de diálogo possível entre a intenção da obra e a “capacidade” imaginada do espectador no momento de se fazê-lo capturado e seduzido pela obra. A idéia de contar a origem dos personagens (tripulantes da U.S.S. Enterprise – nave de ponta da Frota Estelar) já dá vida interessante ao filme: primeiro, por remontar a um passado (no filme a questão de passado e futuro sob aspectos físicos relevantes é hiper-bem, e convincentemente, discutida) que inicia o modelo de arte gráfica que permeará a película, e que faz bem distinguíveis as “opções políticas” de cada segmento que se anteporá daí em diante; segundo, por retroceder a um planeta Terra “antigo” que ainda resiste dentro da modernidade (a Iowa do capitão Kirk ainda criança), com grandes momentos imagéticos que parecem querer homenagear a tradição americana de ver (cinematograficamente), e exportar o esse modo de ver, seus rincões e modos de vida iconográficos – a cena do carro acelerado na estrada e ladeado por paredões está definitivamente marcada nas mentes de quem tem algum apreço razoável pelo cinema -; terceiro, porque empresta (finalmente, para os fãs da série, e calculadamente, interessante para quem ingressa na aventura) passado àquelas figuras que se transportarão infinitamente pelo espaço sideral, e empresta razão para tal.

A ação do filme – que é bastante interessante, como disse no início – é tremendamente bem “emoldurada”, vincada, criada, pelos efeitos de computação gráfica: são dos melhores que já vi, mas não interferem a ponto de se fazerem as estrelas do espetáculo; são de um bom gosto quase inacreditável ante a “violência” do que ocorrerá na tela, mas capazes de criar “desenhos gráficos” (se é que posso classificá-los com tamanha parcimônia de adjetivação) impressionantes – tanto para o espaço, como para as batalhas (que tem algo da “inocência” dos primeiros “Guerra nas Estrelas”), como o design das naves e seus interiores, mas, principalmente, na idealização visual que inicia e completa os “transportes” por desmaterialização (e, obviamente, subsequente materialização, num outro recanto qualquer) dos tripulantes da Enterprise.

Tal ação, porém – e aí reside um dos grandes méritos de Abrams -, não se restringe à bela confecção computadorizada: o filme é bastante bem filmado. Por mais que possa parecer impensável conseguir-se boas tomadas e belos planos em filmes de ficção amparados por tal grande nível de computação, o diretor consegue momentos de raros momentos de “câmera” - “filmes bem filmados” são quase que um pré-requisito obrigatório para fazer de “filmes, bons filmes”. E – aí se aproximando e até ultrapassando o que ocorria na série televisiva – há humor sarcástico no trabalho: os personagens não são apresentados como modelos de correção ou fraqueza, ultrapassando tais ditames de cartilha para se fazerem notados por erros ou arrogâncias que gerarão riso. Nem gosto muito de comparações a modelos originais quando falo de obras cinematográficas derivadas, mas no caso de Star Trek não há como fugir: sabendo ser, talvez, a série televisiva com o maior número de apaixonados e defensores, acredito que Star Trek – O Futuro Começa realmente não decepcionará ou causará caça às bruxas; pelo que lembro do algo que via na telinha, há um respeito inteligente (e há ousadia respeitosa e bem plausível quando ousa mudar ou interferir) às personalidades, aos desvios (o primeiro nome de Uhura era questão concreta de discussão e aqui surgirá uma novidade), aos mitos que se fixaram. E há o “bem bom” filme de ficção para os totalmente virgens da história (se bem que não creio quem nunca tenha sido tocado por alguma informação qualquer dela).

P.S.: ah, e tem a aparição de Leonard Nimoy.

Leia também:


Um filme para audaciosamente ir onde a série ainda não foi