RECÉM-CHEGADA:


Fonte: [+] [-]
Original: New In Town
País: EUA
Direção: Jonas Elmer
Elenco: Harry Connick Jr., Renée Zellweger, Nathan Fillion.
Duração: 97 min.
Estréia: 30/04/2009
Ano: 2009


Existem mais camadas na vida e na arte do que imagina Elmer


Autor: Cid Nader

Chega a ser engraçado constatar que os confeccionadores de “artes” consigam são díspares quando conseguem realizar um trabalho seu nos Estados Unidos – isso quando fica evidente que esse primeiro trabalho é uma realização pessoal, advinda da maneira do “artista” imaginar o país ianque. Tentando esmiuçar um pouco mais: é evidente que os Estados Unidos – principalmente após a Segunda Grande Guerra – são uma Meca intelectual de grandes segmentos do mundo todo; atendo-me ao cinema, é bastante notório o que vários diretores confeccionam em sua terra natal, e o quanto se “denunciam” quando da oportunidade de manifestarem e trabalharem no país da América do Norte (quase todos acabam fazendo um primeiro trabalho – pelo menos um – com todas as características do que sempre os atraiu por lá); só que há os que (e creio serem a maioria) se apaixonaram pelos Estados Unidos resultante do movimento beatnik – e isso é muito mais amplo do que se pode pensar num primeiro instante (há até o movimento hippie originado, ou práticas vegetarianistas, zen-budistas...), como os mais facilmente identificáveis, há outros mil, e há os que se apaixonaram pelo modo americano “puro e virtuoso” de ser.

O cinema americano tem papel forte na manutenção deste aspecto imaginado, em um povo que valoriza as instituições familiares e religiosas como as bases mais sólidas da nação. Pensar em Frank Capra ou Clint Eastwood, ou mesmo ainda Spielberg, sob este aspecto, chega a ser covardia: cada um deles sabe como fazer com que sua visão desses pilares não carregue em ufanismo barato, pieguice, ou simplismo originado de apreciação apenas da superfície – e cada um deles têm registros muito próprios do que eles entendem como a grande “instituição pura de uma nação de gente, de pessoas” (bastante diversos um do outro).

Fica fácil diferenciar capacidades quando se vê um primeiro trabalho realizado – por diretor estrangeiro -, manifestando apreços particulares pelo país. Jonas Elmer é daqueles que enxerga o simplismo – talvez não saiba da potência “beat”, e com certeza não entendeu as camadas mais interiores das obras de autores locais. Dinamarquês, fez seu Recém Chegada como se fosse uma dissertação infantil. Apelou para o carisma de boa moça de Renée Zellweger (como a executiva, Lucy Hill, que tem de deixar a paradisíaca, ensolarada e urbana Miami, para se entrincheirar num rincão congelado, caipira, e carola lá em Minesotta – a tentativa é a de salvar e “robotizar” uma fábrica de alimentos, razão que a move, com o intuito da promoção na empresa). Apelou para o “sex-apeall com cara de boa gente” de Harry Connick Jr. (o sindicalista, caminhoneiro, pai de menina adolescente, viúvo..., Ted Mitchell) – que enfrentará quem em defesa dos trabalhadores prestes a serem demitidos - adivinhem?

Pensando na premissa da história, na boa cara dos atores que fazem o casal central, já dá para perceber a premissa da não surpresa que calcará tudo que virá com o decorrer da película. Obviamente que virá a atração, a perda da arrogância de Lucy, o “fraquejamento” do sindicalista barbudo. Obviamente que o filme trilhará caminhos que levem aos bons costumes, à boa índole de toda uma cidade. Mas, incrivelmente, o diretor conseguirá fazer com que ele tenha mais virtudes do que qualquer um poderá supor antes de vê-lo; mais caretice (e aí que digo ser obra de camada superficial, como se algum dos grandes americanos que citei acima enxergasse os seus virtuosos de modo tão único); mais bobeira familiar; menos reviravoltas surpreendentes (nenhuma, aliás); menos coisa a ser deduzida ou imaginada como algo que possa mudar um pouco o ritmo que pretende levar a um final imaginado nos primeiros takes. Não dá para acreditar em tanta inocência – nem para acreditar que, com um trabalho desse modelo, os donos do entretenimento possam estar pensando em aliviar os corações ianques nestes momentos de crise inclemente (como será até possível imaginar).

Leia também: