CINZAS DO PASSADO REDUX:


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Original: Dung che sai duk
País: Hong Kong/China/Taiwan
Direção: Wong Kar-wai
Elenco: Leslie Cheung, Maggie Cheung, Brigitte Lin
Duração: 99 min.
Estréia: 30/04/2009
Ano: 2008


Mais uma obra com toda a qualidade de Wong Kar-Wai


Autor: Cid Nader

Se é de visual bonito que se faz o cinema "karwaiano", segundo alguns; se é de beleza plástica, primor nos detalhes, invenções na tela, técnicas apuradas, luzes, momentos imagéticos, deslumbre, cores, músicas, músicas e cores, granulações, variações na velocidade da película, estética, é disso que também é feito "Cinzas do Passado - Redux". Se é de histórias complexas, narradas meio que em tom de "conto", com idas e vindas difíceis de serem compreendidas numa primeira visita, com personagens que se confundem - um tanto pela similaridade física, pelo brilho no olhar, pelo sorriso irônico nos homens e pela beleza estonteante das mulheres - : temos em "Cinzas do Passado" - Redux", mais um exemplo. Mas se muitos compreendem o cinema dele como gerado pelo desamor óbvio que forja a personalidade de algum homem que se recusa a entrar de cabeça nos relacionamentos, pelo medo que esse desamor causou num passado, estendo-se desse homem para quem algum dia resolveu que queria amá-lo, e fazendo esse alguém sofrer, já em "Cinzas do Passado", antes de ser re-editado e ganhar o adendo de "Redux" (lá atrás, em 1994), surgia mais uma vez tal homem.

"Cinzas do Passado - Redux", é mais uma obra com toda a qualidade de Wong Kar-Wai. Essa história de alguns que não gostam, de seus filmes e só o vêem como algo feito e e amparado por estética gratuita, fica absolutamente sepultada nesse, que é seu filme que mais utiliza ferramentas e utensílios que tal modelo de cinema vazio carrega como instrumentos. Nesse filme de espadachins - algo que foge ao seu olhra mais comum que é basicamente voltado para os momentos do século XX -, o recurso da câmera lenta é usado e abusado; as cores fortes em cenários grandiosos - com vento, sol e lua fazendo papéis de coadjuvantes - e fotografados com lentes que lhe impõe limites e amplia suas "potências" naturais, presentes como em nenhuma peça publicitária; há a música que interfere, tomando espaços de narração oral, ou placidez de possibilidades de contemplação, para se impor e emocionar na marra: e com tudo isso, ou melhor, justamente pela coragem (ou estilo) de trabalhar beirando e ultrapassando esses patamares pré-determinados como malefícios inconciliáveis com a boa sétima arte, fazendo ver que seu cinema não rejeita as possibilidades de embelezamento que alguns virtuosismos estéticos oferecem, sabendo dominá-los, utilizando-os de modo muito ousado e como chancela de autoralismo, Kar-Wai desconsidera os que não gostam, fazendo com que opiniões simplistas baseadas em cartilhas críticas sucumbam. Sucumbam porque o cinema que faz é de rara similaridade na história do cinema.

E não é só retórica defensiva sem fundamentos que utilizo aqui para fazer de ferramentas normalmente impuras, geradoras de vida bela e com profundidade. Mesmo com tema, aparentemente, bastante diverso - na época escolhida para contar essa história - do resto de sua obra, esse filme de 1994 se insere facilmente na tocada autoral que mantém rigor nas possibilidades de comparação de seus filmes. A essência básica está mantida como até já citei acima: é uma obra extensa criada para falar de amor e de fuga dele - nos seus filmes os homens (a categoria macho), evitam a afeição levada mais aprofundadamente. Ele conta histórias onde as razões para esse distanciamento são repetidas e re-encapadas. No caso aqui, entre recordações e presente (seus filmes rodam dentro dessas idas e vindas que os fazem um tanto incompreensíveis quando vistos uma única vez - algo melhor do que a dificuldade inicial, e que se revelam elementares quando compreendidas, em um cinema que "sofreria do vazio essencial dentro da enganação publicitária"?), Ouyang, um espadachim que não luta, mas vive de arranjar espadachins corajosos para resolverem questões de quem esteja a fim de pagar um bom dinheiro, narra uma rejeição de amor (sua amada o teria abandonado para casar com seu irmão), nos caminhos que percorre no deserto de areias vermelhas. Fala de um eremita que se recolheu a uma montanha e que espera sempre, na mesma época do ano, a passagem de um ser estranho que também entrará na seara das lutas que farão trechos do filme e que trarão para a tela da tradição das histórias de espdachins, chinesas. Mostra mulheres que abdicam de si (como homens) em favor da "felicidade" de uma irmã. Mostra uma outra (até onde serão uma e outra?) que oferece um burrinho e alguns ovos para quem vingar seu irmão, e que consegue algumas compaixões, que acabam por entregar alguns desses homens às lutas.

O cinismo e a tristeza embalam os momentos de Ouyang - algo recorrente nos personagens instáveis amorosos de seus filmes - que deveria esquecer a mulher amada por conta de um vinho mandado por ela, e que apaga memórias. Dois bebem dele e um não esquece, somente alimenta o passado. Mais uma característica desse cinema que não utiliza suas alterações de velocidade para simples ornamento de tela, mas como algo que mexe com memórias, que é algo que trafega de modo particular, sem a certeza do que é ditado de modo cronológico, e sem a velocidade imposta pelos minutos exatos, que são formados pelos segundos... É filme que fala em círculos e que se explica bem aos poucos (como disse, provavelmente exigirá uma revisita), que arrebata pelo visual, pela beleza, pelas singularidades de um modo de cinema único, e que surpreende de modo extremamente emocionante quando revela um destino trágico, à distância, que não é sabido nos momentos comuns, mas que gerará um despertar que jogará personagem, no final, à realidade de lutas como a solução - lutas que vem do imaginário chinês, da sua literatura, de seus teatros e de suas músicas, fazendo disso um elo de ligação entre a Hong-Kong contemporânea (cenário principal da obra do diretor) e a grande China, mãe de todas as memórias.

Não vi a versão original - que teve filmado dentro de seu período de produção "Amores Expressos", tão diferente e tão próximo - mas sei que nessa, a explosão de cores e sons está impecável. Espero que não encrenquem - os que encrencam - com isso também.

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