A JANELA:


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Original: La ventana
País: Argentina/Espanha
Direção: Carlo Sorin
Elenco: Maria Del Carmen Jiménez, Antonio Larreta, Alberto Ledesma.
Duração: 85 min.
Estréia: 30/04/2009
Ano: 2008


Sorin fracassa ao tentar injetar sensibilidade ao convencionalismo de “A Janela”


Autor: Fernando Oriente

Carlos Sorin é um cineasta que gosta de trabalhar com pequenas histórias envolvendo emoções tipicamente humanas de gente comum. Seu cinema é centrado em detalhes, em gestos mínimos e em sensações sentidas, mas muitas vezes não expressas. Vendo sua obra por meio dessas características, pode até parecer que se trata de um grande diretor; mas isso não é verdade. Sorin tem méritos. Sabe filmar bem, constrói alguns bons climas em seus longas e traduz em suas cenas uma inegável sensibilidade artística. Mas esses elementos não são suficientes para fazer dele nada além de um cineasta razoável; um pouco acima da média.

“A Janela”, seu mais recente longa, é um típico exemplo de seu cinema. As sutilezas do tema abordado, as emoções recalcadas de seu protagonista e a sensação de espera e angústia que cercam o longa são retratadas de forma burocrática pelo cineasta. Por mais que tente usar subterfúgios estilísticos e narrativos, Sorin não consegue fugir do convencional e dos lugares comuns. No filme, vemos um velho de mais de 80 anos em seu último dia de vida. Ele aguarda a visita do filho que não vê há anos. Em meio à espera, o personagem fica absorto em reminiscências e angustiado pela certeza da morte iminente. Esses temas, nada originais por sinal, são tratados com um verniz estético que não oculta a falta de densidade das situações. A fuga do personagem para dar um passeio pelo campo, as belas paisagens da região onde fica sua casa e o anseio de “tentar viver um pouco mais” do protagonista são construídos de forma caricata. Ao querer pôr o humano e suas limitações em primeiro plano, Sorin acaba soando falso e banal. Falta textura ao seu personagem e as situações que o envolvem.

O encontro com o filho pródigo, que há anos vive uma carreira brilhante de pianista pelos palcos da Europa, chega a ser um clichê gritante, potencializado pela presença da presunçosa mulher do filho. O que torna a situação pior é a constante tentativa de Sorin em evitar a sensação incômoda dos lugares comuns que filma. Ele reduz a duração dos planos, fecha os ângulos para realçar objetos que teriam importância sentimental para os personagens e procura dar um tratamento sofisticado de luz à fotografia. Nada disso passa despercebido do espectador mais atento, que já está cansado de subterfúgios formais que visam esconder a superficialidade de tantos filmes que chegam anualmente às nossas salas.

Ao querer trabalhar com o mínimo, restringir-se à contenção dramática e a introspecção de sensações e sentimentos, o filme de Sorin fica preso a esquematismos pseudo-minimalistas que acabam por engessar o potencial dos dramas e as possibilidades do diretor em ampliar a profundidade daquilo que quer retratar. Sorin passa uma nítida impressão de conformismo; parece, para o diretor argentino, que seus recursos esquemáticos são suficientes para aprofundar suas propostas. O medo de ousar, de tentar ir além daquilo que o publico mediano está acostumado a ver compromete as inegáveis boas intenções do cineasta.

Com todas as suas limitações, os filmes de Sorin ainda ficam anos luz à frente de muitas produções argentinas que chegam ao Brasil. Seu cinema é, sem dúvida, infinitamente superior aos monumentos à pieguice estrelados por Ricardo Darín e ao cineminha medíocre sobre os “probleminhas de classe média” filmados pelo embusteiro Daniel Burman. Carlos Sorin ainda tenta abordar temas relevantes dramaticamente, constrói planos de maneira mais competente e tem boa noção de decupagem, além de uma inegável sensibilidade para abordar temas humanos. Mas apesar de tudo isso, seu cinema ainda está longe de ser considerado bom.

Guardando enormes proporções, um bom exercício para o espectador que se interessa por um temas tão complexos como a velhice e a proximidade da morte, é com comparar o filme de Sorin com três obras primas de um trio de gênios do cinema. Em “Era uma Vez em Tóquio”, Yasujiro Ozu filma com maestria a finitude da vida de um casal de idosos por meio da relação desses com seus filhos. A memória e o peso do passado no final da vida são o tema central do belíssimo “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman e a solidão e as limitações da velhice ocupam o centro de “Umberto D”, um dos mais importantes filmes realizados por Vittorio de Sica. Logicamente Carlos Sorin não pretende se equiparar a esses mestres, mas ao menos poderia ter menos preguiça em arriscar mais e evitar os lugares comuns e a banalidade.

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