ALEXANDRA:


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Original: Aleksandra
País: Rússia/França
Direção: Aleksandr Sokurov
Elenco: Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov, Raisa Gichaeva.
Duração: 95 min.
Estréia: 01/05/2009
Ano: 2007


Metáfora da Grande Mãe Rússia


Autor: Cid Nader

Com "Alexandra", Alexander Sokurov parece estar querendo fechar cada vez mais forte um grande e afetuoso abraço familiar: isso constatado por algumas obras de sua extensa carreira. Coincidentemente ou não - sinceramente creio que não - esse diretor vem fazendo da tela uma projeção do que é a grande Rússia no aspecto interno e familiar dos lares. Já havia feito "Mãe e Filho" e "Pai e Filho". Nesse, nos apresenta uma avó, Alexandra. Importante lembrar que o grande país que se estende por dois continentes, encontra sempre nas relações familiares um farto material para suas artes, bastando lembrar na literatura "Os Irmãos Karamazov", de Fyodor Dostoiévski, e um outro clássico tão grande quanto, "A Mãe", de Máximo Gorki. Importante lembrar que esse traço de forte apego familiar naquele país, provavelmente se origina da necessidade quase impossível de ser superada advinda dos longos recolhimentos aos lares, por conta dos longuíssimos e gelados invernos - isso tudo remete a conforto, aconchego, abraço; daí a pensar no país como um dos do mundo que "praticam" descaradamente - e de modo extremamente afetuoso - as trocas com os seus, um passo. Nos filmes do diretor em que há essa relação como o mote principal, o "excesso" afetivo sobra e transborda: fato.

Mas, enquanto assistia ao belo filme - sim, achei-o bonito na medida certa, não o melhor de sua carreira, mas longe de alguns fracassos que ameaçavam deixá-lo somente rotulado por algumas práticas cinematográficas recorrentes -, outra coisa muito óbvia ficava me fazendo pensar no personagem interpretado pela plácida e também contundente boa velhinha, interpretado por Galina Vishnevskaya: o mito da grande mãe Rússia (e nós voltando para dentro dos lares) estava sendo metaforizado na tela pela avó de um militar que batalhava na Chechênia. Alexandra é levada para um campo militar incrustado dentro de uma cidade semi-destruída pelo exército russo - todo o início desse deslocamento (e talvez não fosse o caso de revelar o que já revelei) por trem é feito sob um rigor de silêncio e nada a informar suficiente para remeter o espectador à dúvida do que significaria aquilo; mas, mesmo sabendo, o que vale é a percepção de todo um processo de filmagens bem realizadas (não dá para negar que ele filma bem), com climas e luzes, e aquela famosa "mania" dele de colocar forte música instrumental nos momentos menos esperados, menos óbvios. Desde o trajeto até a chegada, desde o encontro afetuosíssimo com o neto até seus primeiros passos no acampamento, desde seus primeiros palpites para ele (por conta da falta de cuidado e falta de banho), ou quando, curiosa, questiona coisas muito mais sérias ligadas a por quês e quais razões, um amontoado de reações faz percebê-la como a mãe (mãe num geral, já que avós são mães mais ampliadas, digamos assim) que quer ter tudo sob controle, ao mesmo tempo em que é carinhosa com quem pede, ou chata sem ser necessário. O mito da mãe Rússia está disposto na tela na sua figura, e Sokurov faz de duas possibilidades de interpretação reais, uma cara e um corpo envelhecido.

No filme, o diretor executa todas aquelas práticas cinematográficas novamente - práticas que desagradam alguns e fazem com que ele seja visto como diretor que somente se sustenta por elas. Utiliza aquela câmera leve - quase flutuante - que ganha ares de flutuação mesmo, pela opção no modo próprio de de utilização das músicas: filma sempre os rostos de muito próximo e com luz meio difusa, enquanto não valoriza os movimentos labiais nos momentos de fala - o que empresta a seus filmes um ar um tanto fabular,um tanto literário, um tanto recitado, um tanto de coisas que realmente não estariam sido ditas; não mantém a narrativa comum, invertendo o sentido da filmagem abruptamente, voltando, e fazendo com que seus personagens também transitem meio a esmo (por muitas vezes). Mas, como em alguns outros bons trabalhos seus - e aí se nota que os que eram bons e os que não eram, não tinham tinham isso por conta dos "maneirismos" -, o diretor mostra-se totalmente consciente de que sabe o que fazer com essas opções "autorais" de execuções técnicas.

Vindo para o mundo dos "vivos" - resgatando o filme das metáforas e das ancestralidades - o passeio que Alexandra dá por dentro da cidade semi-destruída é digno tapa na cara dos que oprimem. As reações dos "de lá" - um tanto inocentes a mais do que poderiam ser - injetam drama humano maior do que já sentia no acampamento com "meninos" tendo que assumir-se homens armados e prontos para morrer. Ela entende os soldados e vê que já têm algo de homens, mas necessitam ainda de olhar como se ainda dependentes - e não é só boazinha, porque reclama, dá pequenos pitos... -; transita teimosamente como uma avó rabugenta e ninguém interfere para impedi-la; sabe de seu poder e sabe o quanto necessitam dela. Sokurov acerta pela metáfora, pela ancestralidade e pelo ataque à barbárie. Um bonito e "falsamente" contido filme russo.

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