MILAGRE EM ST ANNA :


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Original: Miracle at St. Anna
País: EUA/Itália
Direção: Spike Lee
Elenco: Derek Luke, Michael Ealy, Laz Alonso, Omar Benson Miller
Duração: 160 min.
Estréia: 10/04/2009
Ano: 2009


Spike Lee mostra que ainda há o que contar sobre a Segunda Guerra


Autor: Laura Cánepa

A Segunda Guerra Mundial é uma fonte aparentemente inesgotável de histórias, e vem alimentando a literatura e o cinema há mais de 60 anos com impressionante freqüência e regularidade.

Mas, depois de tanto tempo de reflexão a respeito do conflito em inúmeras representações, fica difícil perceber alguma história realmente nova sendo contada. E é isso que torna o novo filme de Spike Lee, Milagre em St.Anna, um dos mais interessantes deste ano, apesar da irregularidade indisfarçável em longuíssimas duas horas e meia de projeção. É que, em sua estréia num gênero já tão codificado como o filme de guerra, Lee parece “errar a mão” em alguns momentos, mas, justamente por isso, acaba fazendo um filme muito especial e superior a obras simplificadoras como O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg, como qual tem alguma semelhança.

Milagre em St.Anna, como Ryan, conta a história de um grupo de soldados afastados de seu pelotão que, por alguma razão, devem proteger a vida de alguém com quem, a princípio, não têm qualquer ligação. No filme de Spielberg, tratava-se de um outro soldado que deveria voltar vivo para casa depois de perder seus três irmãos na mesma guerra. No filme de Lee, a trama envolve quatro militares, membros do 92º Batalhão de Infantaria do exército dos EUA (o primeiro formado inteiramente por afro-descendentes), que ficam encurralados perto de um vilarejo na Toscana depois de um deles arriscar a vida para salvar um menino italiano.

Lidando com as dificuldades da própria guerra, que, em 1944, já estava em seu final, os soldados também são obrigados a enfrentar o preconceito de seus próprios colegas (brancos) do exército, que duvidam de suas capacidades e, sempre que podem, colocam-nos na frente em situações potencialmente suicidas. Para eles, então, a guerra se transforma num exercício de patriotismo e autocontrole quase insuportável, e que só pode ser superado pela lealdade que estabelecem entre si e com o menino.

Para chegar a esse ponto, porém, a história, escrita pelo roteirista James Mcbride (e inspirada em seu próprio romance), dá uma imensa “volta” - que, num primeiro momento, pode parecer apenas uma virtuose narrativa. Mas o curioso é que essa estratégia acaba se revelando o maior trunfo do longa, pois cria um suspense que não envolve apenas “quem morreu”, típico dos filmes de guerra, mas também uma trama de mistério que impede o espectador de se perder completamente em meio a dezenas de personagens importantes.

Assim, apesar das viradas rocambolescas e do tom melodramático (presente em quase todos os filmes de guerra que se propõem a adotar um ponto de vista "humano"), o filme funciona e gratifica quem o acompanha até o final.

Comparado-se Milagre em St.Anna com outros filmes de grandes cineastas que se aventuraram a filmar a Segunda Guerra recentemente (como Spielberg e Clint Eastwood), percebe-se que Lee, escudado por um elenco carismático, sai inteiro. E arrisco dizer que seu filme, mesmo com mais problemas de estrutura e de ritmo do que Ryan ou Cartas de Iwo Jima, é ainda o que estabelece a ligação mais interessante com os personagens e revela uma experiência ainda não explorada sobre os heróis da Segunda Guerra Mundial: o drama de seu próprio preconceito racial, que ainda se mostra como uma ferida após mais de 60 anos dos episódios narrados.

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