FIEL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Andrea Pasquini
Elenco: Documentário
Duração: 92 min.
Estréia: 10/04/2009
Ano: 2009


Documentário dirigido para público específico (e aí, emociona)


Autor: Cid Nader

Foi interessante ter visto por duas vezes o documentário Fiel antes de escrever um texto crítico sobre ele. Tentando analisá-lo friamente, sem deixar que paixão clubística indica sobre o lado torcedor, se tivesse ficado com a impressão deixada na primeira vez, estaria dizendo dos defeitos do trabalho – de alguns deles, bastante visíveis na primeira olhada. A diretora Andrea Pasquini acabou utilizando uma chave padrão quando imaginou a construção do trabalho: dividiu-o quase que cirurgicamente em três partes. Uma opção esperta mas que diminui a possibilidade criativa – como se quisesse evitar derrapagens por manobras arriscadas.

Em se tratando de um produto destinado quase exclusivamente para um segmento específico – é um filme “oficial”, que fala da paixão da torcida corintiana por seu time – que, supostamente, não estaria acostumado a frequentar salas de cinema para ver documentários, ditar as coisas que transcorrerão na tela por 90 minutos “careceria” de cuidado e aceleração leve. Portanto, lá na primeira vez em que vi o trabalho, ficou a impressão pesada da repetição inclemente de torcedores sobre sua paixão pelo time, da sua “diferença” em relação a outras torcidas, de sua identificação, de como o Corinthians pertence à torcida e não ela a ele... Toda a “primeira” parte foi dedicada a essa explanação, e, sabe-se perfeitamente, não há muita imaginação no que será dito por torcedres de futebol falando de seu time, retando um cheiro de repetição exagerada fazia pensar o quão bem teria caído uma abreviação na mesa de edição.

Lá na primeira vez, a segunda parte se impunha sem muita delicadeza para contar o momento de maior tristeza – o da queda para a segunda divisão do campeonato brasileiro -, quando, em filme s ficcionais ou dramas épicos, resta a impressão de o fim do mundo chegou e de que o próximo passo só levaria ao abismo maios profundo. A diretora, pensava no seu filme de forma quase que ditada por cartilha. Tanto senti isso, naquele momento, que a obviedade indicava para a catarse final – na terceira parte, evidentemente -, quando a redenção sobrepuja os sofrimentos que pareceriam sem fim, justamente no momento em que o clube volta redimido de onde nunca deveria ter saído, e isso, no filme, sonorizado por um arranjo meio rebuscado do hino do clube. Mesmo assim, mesmo não satisfeito com o que via, consegui garimpar na minha estréia ante o trabalho algumas soluções interessantes: a narração do filme todinha sendo feita por depoimentos de torcedores e jogadores que passaram por aquele suplício; o acerto no momento escolhido para que se revelasse uma doença (principalmente por ter sido feito de modo quase natural, sem a imposição da pieguice que tanto se insinua em tais casos); a boa maneira de acompanhar alguns dos “torcedores depoentes” indo ao estádio para o jogo da volta.

Rever o filme foi interessante, e acabou por fazer com que o que me parecia ostensivo, gritante – a rígida divisão em busca de um final cheio de glória -, não resultasse (nessa segunda visita) tão importante ante o resto que me havia “escapado”. Fiel me surpreendeu pelas belas imagens captadas (não as havia notado tão belas) no meio da multidão: a tomada do portão principal, com um céu azul escandaloso, o tobogã (uma arquibancada do estádio do Pacaembu, em São Paulo) fervilhando ao fundo, as pessoas olhando a manifestação da maior torcida organizada do time na arquibancada logo na entrada do, a câmera “pulando” junto no momento do gol (bem no meio da “ferveção”), ou pegando as reações dos entrevistado e de mais alguns outros nos momentos de sofrimento, ou, mais ainda, numa bela geral bem ampla, onde se pode notar, com belos detalhes, um movimento de explosão de alegria, não coreografado, e contundente, revelador, no que queria dizer do que deve ser torcer: uma grande melhora na minha avaliação, justamente no aspecto técnico do documentário.

As imagens de sofrimento pegas da televisões no momento da queda, justapostas a depoimentos sobre o fato e a alegria esfuziante e inocente da torcedora que revelará um fato de impacto, já eram um ponto favorável a Andrea Pasquini desde sempre. Rever o filme e notá-lo – apesar da divisão em três – mais bem realizado tecnicamente, foi um alívio e uma benção.

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