VOCÊS, OS VIVOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Du levande
País: Suécia/Alemanha
Direção: Roy Andersson
Elenco: Jessika Lundberg, Elisabeth Helander, Björn Englund.
Duração: 94 min.
Estréia: 10/04/2009
Ano: 2007


Ambígua afirmação da vida


Autor: Fernando Oriente

“Vocês, Os Vivos”, de Roy Andersson, é um criativo estudo sobre o estado de espírito do ser humano. Essa definição dúbia não se sustenta numa compreensão puramente semântica. Estado de espírito aqui deve ser visto como um conjunto de características, condições e especificidades que compõem elementos psicológicos e até mesmo metafísicos do homem. A condição humana é abordada por meio de alegrias, frustrações, esperanças reprimidas e um eterno e intransponível movimento de se deixar levar pela vida cotidiana. A existência ordinária, em seus aspectos mais corriqueiros do dia a dia, está no centro dos 57 planos que compõem o filme. Andersson foi extremamente feliz ao optar em construir seu longa com planos estáticos. A imobilidade da câmera oferece uma possibilidade para o diretor trabalhar minuciosamente os detalhes dos elementos que preenchem a totalidade do quadro. A mis-en-scene é pensada dentro dessa imobilidade e na relação do tempo de apreensão das ações dentro das limitações do espaço captado. Esses recursos acabam por expor de forma detalhada os personagens e seus movimentos (externos e internos). O espectador tem mais tempo para escrutinar o ambiente fixado pela câmera por meio de um olhar fixo.

Essa escolha estética de Andersson poderia aproximar o longa do cinema estrutural e das probabilidades hiper-realistas dessa concepção fílmica, mas soluções fantásticas e absurdas, além de uma ácido humor negro, surgem na tela para quebrar com essa possibilidade. As situações encenadas pelo diretor, envolvendo tipos comuns em diferentes pontos de Estocolmo, são aparentemente independentes entre si. O que liga as cenas é, além de alguns personagens que retornam em momentos diferentes do filme, a semelhança das sensações e dos sentimentos que essas figuras dramáticas carregam. São pessoas apáticas, que mesmo quando extravasam de forma brusca aquilo que estão sentindo, não abandonam a apatia e o desconforto.

O filme de Andersson não deixa de ser uma afirmação da vida, mas seu discurso não é calcado em um sentimentalismo simplista nem na glorificação da simples existência. O que chama a atenção nas situações do filme são as probabilidades de se viver em meio a impossibilidades de perfeição. Não é no conto de fadas ou nos clichês de alegria e satisfação que o homem vai encontrar o segredo definitivo do “viver bem”. Ansiedade, decepção e insucesso são elementos da existência que fazem parte do repertório de vida de qualquer um. Saber lidar com as limitações e conseguir seguir adiante é o que fazem, involuntariamente, os personagens de “Vocês, Os Vivos”. A identificação do público com os tipos que vê na tela é calcada no reconhecimento de afinidades de espírito. O que reconhecemos como ordinário e banal nas ações e inações dos personagens é uma representação dos aspectos prosaicos da nossa própria existência.

O humor e a ironia marcam forte presença no longa. Momentos cômicos são construídos em cima de situações que beiram o absurdo, o surrealismo. Dramas individuais são subvertidos por Andersson, que transforma momentos de dor em combustível para que o saudável ato de rir de si mesmo seja enaltecido. É abraçando o lado imperfeito da existência que o diretor enaltece a vida. Saber viver é cingir o patético e conviver com a frustração. É não se levar a sério em nosso eterno desejo de ter tudo como imaginamos. O prazer e as possibilidades de alegria estão nas entrelinhas dos acontecimentos corriqueiros, estão em superar reveses e abraçar a beleza do que não é explícito nem pré-definido como ideal.

Outra bola dentro de Andersson são suas concepções visuais para o filme. Para falar dos “vivos”, o cineasta opta por uma fotografia toda em cores claras e tons pastel. A luz branca empalidece cenários e personagens que, também devido a maquiagem, muitas vezes parecem fantasmas. Esse conflito entre as ações corriqueiras que os tipos realizam com sua aparência espectral possibilita um discurso ambíguo sobre a apatia da vida moderna. Esses fantasmas existem e perambulam pelas grandes cidades sem serem percebidos. Buscam aquilo o que todos nós buscamos, mas na maioria das vezes, ficam apenas com o que sobra de toda a grande expectativa humana: a vida e nada mais.

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Curioso apenas.