VALSA COM BASHIR:


Fonte: [+] [-]
Original: Vals im Bashir
País: Israel/Alemanha/França
Direção: Ari Folman
Elenco: Animação
Duração: 90 min.
Estréia: 03/04/2009
Ano: 2008


Em longa poderoso, Ari Folman tenta escapar das armadilhas da retórica sionista


Autor: Fernando Oriente

A recriação por meio de belíssimas e cruéis imagens em animação de uma guerra sangrenta e de um dos mais bárbaros massacres da história recente é o esqueleto do filme em que o diretor Ari Folman faz um resgate do horror, da crueldade e do papel da fragilidade humana em meio a um cenário desolador. “Valsa com Bashir” é um longa impressionante. Mesmo em suas imagens animadas, a discussão do sofrimento, da miséria humana e de suas consequências atingem uma grande intensidade dramática. Folman é objetivo e decupa de maneira competente o seu filme, o que permite a construção de um drama calcado nas sutilezas e complexidades daquilo que recria em imagens e discursos.

Antes de abraçarmos a análise do filme em suas concepções estéticas e de conteúdo cinematográfico é necessário contextualizarmos o ambiente político-histórico que cerca o longa. O onipresente clima belicoso de Israel e suas eternas desculpas históricas para perpetrar massacres e arbitrariedades no direito internacional é um tema espinhoso. A retórica sionista acredita que a praga do anti-semitismo pode ser revertida como desculpa para qualquer ação feita pelo estado israelense. Em “Valsa com Bashir”, Ari Folman contorna esse problema e expõe as ações irracionais e violentas do exército de seu país. O cineasta usa fragmentos subjetivos das histórias de combate de diversos personagens para descrever a brutalidade e a insanidade das batalhas no Líbano. Usa a recriação ficcional dessas passagens para compor um discurso calcado na demência desses conflitos e como isso afeta as especificidades da condição humana de cada um dos soldados envolvidos; bem como a dor infligida aos libaneses e refugiados palestinos.

Os personagens que narram suas histórias na guerra são cheios de fraquezas. O medo, a culpa e a sensação de impotência os acompanham o tempo todo e o fato de terem sobrevivido para poder contar seus relatos faz com que seus discursos (que ilustram as cenas do filme) sejam proferidos de maneira tensa e difusa. Para eles, relembrar os eventos é um processo doloroso. O alívio por terem escapado da morte, além do peso da brutalidade das ações que praticaram, provoca certo receio em vasculhar a memória e procurar a exatidão real do que aconteceu. Para compor as cenas do longa, Folman usa um processo narrativo ancorado em uma construção memorial das imagens. Os recursos de animação possibilitam sequências em que realidade e fantasia se misturam da mesma forma como a memória humana recria imagens por meio de construções simbólicas e alegorias representativas.

O momento de maior tensão para Ari Folman como cineasta é a recriação do massacre perpetrado por milicianos cristãos maronitas contra os refugiados palestinos em Sabra e Shatila. A chacina ocorreu em uma área controlada pelo exército de Israel dentro do Líbano, em meio à atuação das tropas israelenses no país (comandadas por Ariel Sharon em 1982). O que mais incomoda o espectador que se revolta com as frequentes ações assassinas do estado de Israel é o fato da recriação do massacre ser o clímax de “Valsa com Bashir”. Ao optar em centrar o ápice do drama nesses acontecimentos horrorosos, o diretor acaba por (involuntariamente?) diluir o impacto da ação e da culpa (direta) israelense por todo o restante do conflito no Líbano. Folman deixa claro que a omissão e a permissividade do exército israelense durante a ação homicida contra os palestinos é, também, um crime contra a humanidade (a própria Corte Suprema de Israel considerou Sharon, como Ministro de Defesa na época, responsável pelo massacre, já que “falhou” terrivelmente na proteção que deveria dar as vítimas). Mas de certa forma, por meio de diálogos em tons “psicologistas”, o cineasta acaba por dissolver a culpa dos soldados israelenses por essa omissão. O horror do massacre, mostrado de forma competente, chega em um determinado momento na evolução do filme que faz com que impacto das sequências anteriores, em que as ações do exército de Israel ocupam o primeiro plano, seja atenuado. É um deslocamento sutil, que poderia passar despercebido não fosse pela presença em pano de fundo de elementos da retórica sionista, esse tão conhecido mecanismo de tentar desviar o foco das ações israelenses para outras passagens históricas e para atos bárbaros realizados por outros povos e países.

Embora contaminada por esses fatores, as passagens em que “Valsa com Bashir” aborda os massacres de Sabra e Shatila são momentos de grande cinema. Folman intercala imagens isoladas do barbarismo e da crueldade com depoimentos, registrados em tom documental, de personagens do filme (que dão voz ao que soldados israelenses presenciaram na realidade monstruosa desses eventos). Os relatos desses tipos, interligados como um discurso único sobre os acontecimentos, dão objetividade descritiva as recriações imagéticas. Forma-se um discurso apoiado em uma realidade narrada que é potencializada pelo poder das imagens. Como se não bastasse a força dessas sequências, Folman fecha seu filme com um “murro nocauteador” na cara do espectador: por meio de um corte em raccord, o diretor insere imagens de arquivo reais feitas nos locais do massacre. De um momento para o outro vemos palestinos de carne e osso, que sobreviveram à violência, dirigirem-se desesperados para a câmera. Em meio a imagens de destroços, aparecem na tela pilhas de cadáveres, corpos de mulheres e crianças caídos entre os escombros. O horror e a insensatez ficam ecoando pelo cinema enquanto um fade in traz os créditos.

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