JOGOS MORTAIS II:


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Original: Saw II
País: EUA
Direção: Darren Lynn Bousman
Elenco: Donnie Wahlberg, Tobin Bell, Shawnee Smith, Emmanuelle Vaugier, Dina Meyer, Franky G., Glenn Plummer, Beverley Mitchell e Eric Knudsen
Duração: 93
Estréia: 04/11/2005
Ano: 2005


A farsa continua em "Jogos Mortais 2"


Autor: Laura Cánepa

Atenção: esta crítica foi escrita pressupondo que o leitor já tenha assistido a "Jogos Mortais 1".

No começo de 2005, foi lançado, com mídia mundial, um filme independente que deveria ter saído apenas em DVD, mas que, em virtude do sucesso em diversos festivais, acabou se tornando uma das apostas do ano da Warner Brothers no terreno horror/suspense. Estamos falando de "Jogos Mortais" ("Saw"), dirigido pelo estreante James Wan, em 2004, e escrito por ele e pelo também estreante roteirista Leigh Whannell.

O filme partia de uma premissa engenhosa: dois homens que não se conheciam acordavam acorrentados num banheiro imundo, com um cadáver entre eles, e precisavam descobrir como haviam parado ali. Em seu desespero para compreender a situação (e, sobretudo, para sair dela), passavam a receber coordenadas gravadas em fitas magnéticas ou em pistas espalhadas pelo local. Enquanto isso, um policial interpretado por Danny Glover (único nome de peso do elenco) descobria que o seqüestrador era um serial killer cujo método consistia em prender suas vítimas em armadilhas nas quais eram obrigadas a escolher entre a própria morte e a auto-mutilação, ou entre o suicídio e o assassinato.

Divulgado como "o mais apavorante desde Seven" e "o mais inteligente desde "O Silêncio dos Inocentes", "Jogos Mortais" não era tudo isso - mas a estratégia de marketing pegou, levando milhões de pessoas aos cinemas de todo o mundo para assistirem à mais uma história de serial-killer-de-meia-idade-que-manipula-a-polícia-e-comete-crimes-geniais.

O sucesso da empreitada foi impressionante: a um custo de um milhão e duzentos mil dólares, o filme rendeu cerca de 60 milhões nas bilheterias, levando à produção apressada de uma seqüência, feita em menos de 10 meses: "Jogos Mortais 2", com direção de outro novato, Darren Lynn Bousman, e roteiro do mesmo Leigh Whannell.

A continuação é bem mais fraca que o original. No filme de Bousman, de fato, as falhas do primeiro se repetem de maneira tão sistemática que beiram a comédia. Afinal, se em "Jogos Mortais" o roteirista já parecia confiar demais na eficácia de sua idéia inicial, despreocupando-se em dar sentido ou coerência ao que se passava (e disfarçando o tempo todo os furos do roteiro), em "Jogos Mortais 2", mal há um roteiro. E o que é pior: na falta de uma boa história para contar, os personagens falam demais - e como falam bobagens!

A começar pelo vilão JigSaw (Mark Burg) - que, no caso do primeiro filme, pode ser melhor definido como um artifício narrativo do que como um personagem. Se ele já era fraco aparecendo do nada e dizendo meia dúzia de frases feitas, é ainda pior agora, quando decide detalhar seus métodos e discuti-los com o policial trapalhão interpretado pelo irmão mais feio de Mark Wahlberg (Donnie Wahlberg, ex-New Kids on the Block). Seus diálogos são tão mal ajambrados que desejamos ardentemente que ele volte a se fingir de morto, como fizera no primeiro filme.

E os problemas não param aí: em "Jogos Mortais 2", em vez de dois homens razoavelmente inteligentes metidos numa roubada, temos oito bandidos trancados numa casa enorme cheia de gás Sarin - e que não têm uma única atitude inteligente durante todo o filme. Assim, mais uma vez, personagens que deveriam ser importantes servem como artifícios de roteiro - desta vez, para justificar uma carnificina perfeitamente evitável se houvesse mais de dois neurônios envolvidos em suas decisões. Para completar, um final "surpresa" altamente previsível nos reserva uma lição de moral tosca e reacionária.

Nem mesmo o ar de novidade do primeiro filme, proporcionado pela independência da produção e pelo talento de Wan para criar uma atmosfera de tensão, se encontra neste "Jogos Mortais 2". A montagem ágil e os movimentos de câmera acelerados também só servem para mostrar a falta de personalidade do diretor - e não disfarçam a canastrice do elenco.

Não sou fã do primeiro filme (como já deu pra notar), mas, sinceramente, com esta continuação, a Warner acaba por desperdiçar uma franquia que ainda poderia render boas (e verdadeiras) surpresas. De qualquer forma, a corrida do público adolescente para assistir a essa seqüência já nos permite prever algo ainda pior para o terceiro episódio... O que só confirma a fragilidade de grande parte da nova safra de filmes de horror hollywoodianos (como "Pesadelo", "O Amigo Oculto" e "Horror em Amityville"), quase todos exercícios infantis e descartáveis sobre o bicho-papão.
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