ANABAZYS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Joel Pizzini e Paloma Rocha
Elenco: Documentário
Duração: 98 min.
Estréia: 27/03/2009
Ano: 2008


Artistas compreendendo "o" artista


Autor: Cid Nader

O diretor Joel Pizini costuma ser reconhecido como autor que trabalha o cinema sob uma ótica mais poética, digamos assim. Seu modo de compreensão da arte inviabiliza pensá-la linearmente, narrada concretamente, editada de maneira comum ou conformada. É o típico exemplo do autor que procura sempre atingir seu público via outros sentidos de compreensão; suas obras costumam se contar muito por subtextos, que levam a sub-compreensões... Talvez o fato de ter surgido de modo inequívoco através da linguagem dos curtas metragens tenha feito com que seu olhar tenha sido construído com uma urgência que fizessem com que tempos alongados e minuciosos de detalhamento oral fossem desconsiderados - o que teria contado como elemento bastante pertinente na sua "formação" -, em primeiro lugar; em segundo, é bem possível, também, que sua veia "artística" que privilegia formas mais tênues, menos "claras", mais intuitivas - se bem que sempre muito bem respaldadas por informações cultas - tenha encontrado nesse início somente o formato diminuto como o disponível para abrigá-lo e à sua essência "alterada".

Associado à sua mulher Paloma Rocha - filha de Glauber -, e ao montador original de "Idade da Terra", Ricardo Miranda, empreendeu uma odisséia que os mergulhou no trabalho extenso (por tempo demandado) e ansiado, de pesquisa, de restauro, de suor e certezas que resultou na espécie de documentário denominado "Anabazys". Tratou-se de uma empreitada mesmo quase épica na tentativa de apresentar ao público detalhes e raridades ligadas à obra mais "descontruída" e "desconstuidora" do genial diretor baiano, que é o seu "Idade da Terra" (1980). Filme que ganhou aura de mitológico, sempre e sempre causando debates, falácias, especulações sobre casos atrelados a ele: verdadeiro testamento do diretor. Glauber envolveu-se em discussões que se tornaram mitológicas na tentativa de defesa dessa sua criação - reveladas em "Anabazys" com detalhamentos, humor, momentos de rispidez e dedos levantados.

Jamais poderia esperar de algo vindo das mãos e cabeça de Pizzini algo como uma simples e formal demonstração de resultado de suor braçal - obviamente que resultou louvável esse lado da questão quando constatado o resultado obtido pelo cuidadoso restauro de trechos quase perdidos, de entrevistas e afins. Paloma surge como uma tenaz batalhadora, e trabalhadora, em busca da explicitação pública de um trabalho que sabe ser de importância vital para quem se diz apreciador de cinema. Imagina-se ser dela boa parte esse suor e pé-no-chão executador. O resultado obtido em parceria com a Cinemateca Brasileira e Ctav é dos mais raros que já tive a oportunidade de ver nos quesitos limpidez, brilho, cores, sons... Técnica. E a complementação obtida quando percebido o lado "artístico" do trabalho é de fazer chorar de emoção, de cair o queixo, de acreditar que Deus existe. Joel interferiu - como poucos poderiam, com sua "compreensão" particular da arte, com sua criação nela -, mas manteve a linha provocadora de Glauber. A sucessão de imagens, o ritmo dos sons, as seqüências, restam, ao final - como fosse um retro-gosto -, como obra que faria Glauber se enxergar, se cheirar, se apreciar: fosse vivo. Raridade tratando de raridade em pé de igualdade, organicamente. Artistas compreendendo "o" artista. Trabalho de gente grande que se faz merecedor da visita à sala escura, muito menos do que de textos e críticas.

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