SIMPLESMENTE FELIZ:


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Original: Happy-Go-Lucky
País: Reino Unido
Direção: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Eddie Marsan, Kate O'Flynn, Karina Fernandez, Andrea Riseborough
Duração: 118 min.
Estréia: 27/03/2009
Ano: 2008


Um outro de Mike Leigh a mostrar os seus britânicos.


Autor: Cid Nader

Mike Leigh não é daqueles diretores que arrancam suspiros de mim. Principalmente quando se associa seu nome a “Segredos e Mentiras” (1996), um filme que fez um sucesso danado, mas que entendo como um dos grandes equívocos da história do cinema recente – apelativo, onde o diretor finge estar retratando com carinho e atenção pessoas e suas complexidades, onde finge destacar as individualidades em grau de paridade, semelhanças e importância similares dentro do filme, mas onde acaba oferecendo mesmo algo de teor extremamente piegas, que se aproveita da “bondade” do espectador capturado pela aparente singeleza inicial, para enredá-lo num dramalhão digno da mais pueril criatividade adolescente (afora que é berrado demais). “Vera Drake” (2004), então – outra obra que costuma usar com referência a ele -, nem vou falar!

Mas é evidente, apesar de tudo, que ele é um diretor que adora observar os seus (os ingleses) com a atenção de quem conhece seu quintal, para daí tentar criar seus filmes. Poderia acertar vez por outra? Sinceramente, desconfiaria sempre dessa possibilidade, nele. Mas não é que ele aparece agora com um trabalho que pode ser apreciado – talvez com um pouco de boa vontade a mais – de modo até leve? Lembrando que Leigh tem se notabilizado por “dramalhões falsificados de coisa rotineira”, Simplesmente Feliz é um salto à frente, daqueles que só não percebem os que estiverem de muito mau humor – além da restrição natural e compreensível alimentada por anos.

O filme já sai na frente por não tentar enredar novamente os incautos com teias de lágrimas. Destra vez, o diretor observou e criou seus personagens com individualidades inquestionavelmente britânicas – como sempre ameça nos outros trabalhos –, mas não se utilizou delas como trampolins para uma história de “chororô” desbragado. Até existe lá dentro uma figura de matiz mais densa (o professor de auto-escola Scott, maravilhosamente interpretado por Eddie Marsan): mas desta vez, no momento em que o “drama” explode e a atuação do personagem complexo tem que ganhar a a dimensão total da tela, Leigh conseguiu um momento bastante aceitável, onde se repete um tanto do nervosismo exacerbado bastante comum em seus outros filmes, sim, mas como parte orgânica e complementar de todo um entorno e pessoas muito mais dentro do bom manuseio da vida pela arte.

Creio que não atrapalhe um personagem tão complicado, também, por conta de um amontoado de situações criadas por todo o desenrolar da trama bastante próximas do que o diretor tinha em uma suposta proposta inicial: ao contrário de seus trabalhos mais famosos, as vidas daqui foram imaginadas dentro de um trecho da sociedade britânica, e são contidas pela direção dentro desse trecho, sem a intenção pregressa de fazer delas e do todo esse pedaço, epicismo que remontasse aos momentos mais dramáticos do ser humano. A personagem feliz de Poppy (Sally Hawkins) é muito mais crível, desta vez: e tal “felicidade” - como a visão primeira que se capta de seu jeito (deixando bem claro que continuará a evidenciar outras nuances, bastante interessantes, conforme a vamos conhecendo no decorrer da trama) -, parece ter possibilitado a Leigh (ou ensinado, quem sabe) perceber que pode continuar a revelar os seus ao mundo, logicamente, mas sem a “ajuda” nefasta, covarde, e acomodada de modelos da arte dramática, muito mal executados, por ele, anteriormente.

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