CHE:


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Original: The Argentine
País: Espanha/EUA/França
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Benicio Del Toro, Catalina Sandino Moreno, Demián Bichir, Rodrigo Santoro, Julia Ormond, Lou Diamond Phillips, Franka Potente, Benjamin Bratt
Duração: 131 min.
Estréia: 27/03/2009
Ano: 2008


Sinceridade, coragem e força


Autor: Fernando Oriente

A primeira pergunta que vem a cabeça de muitos espectadores antes de assistir a “Che” é: o que esperar de uma versão cinematográfica da vida de um dos maiores ícones da esquerda em todos os tempos cuja direção é assinada por um norte-americano? E, como se não bastasse, produzida com dinheiro de estúdios pertencentes à mega-corporoções capitalistas? Após quatro horas de filme, as respostas para essas dúvidas ficam claras. O longa de Steven Soderbergh é uma poderosa cinebiografia que registra, com sinceridade, coragem e força (e sem sentimentalismos vulgares), a vida e os feitos de um dos homens mais importantes da recente história mundial. Outro aspecto que enaltece a obra é a coragem de Soderbergh. O Ernesto Guevara que vemos na tela é retratado pelo cineasta com um misto de admiração, respeito e enaltecimento de seus atos e pensamentos.

Particularmente, não gosto de usar pronomes pessoais e verbos em primeira pessoa do singular nas críticas que assino, mas me vejo obrigado a abrir uma exceção aqui. Por razões sentimentais e ideológicas, é bem capaz que tenha gostado ainda mais de “Che” do que suas qualidades como filme permitiriam. Apesar dessa ressalva, é importante deixar claro que o filme de Soderbergh possui muitos predicados, independente da orientação político-intelectual do espectador.

Um dos principais méritos do longa é confirmar o valor e a importância capital que Ernesto Guevara de la Serna têm como pensador , político e homem de ação dentro das lutas por um mundo mais justo e igualitário. Em meio a crescentes campanhas das forças reacionárias (com ecos que chegam ao Brasil até em reportagens de capa de revistas semanais de direita) que visam diminuir a importância e até crucificar e ridicularizar Che, o longa de Soderbergh o recoloca em seu devido lugar: um mito muito maior do que qualquer movimento difamatório e muito mais importante do que um mero produto de consumo da imagem em camisetas e botons.

Dividido em duas partes (com características estéticas diferentes entre elas), o longa retrata, em sua primeira metade (“O Argentino”), a conquista do poder em Cuba, com a passagem de Che pela ONU em 1964 como pano de fundo. Na segunda (“Guerrilha”), vemos a incursão do revolucionário na luta armada na Bolívia e seu assassinato em 1967. É uma divisão entre a o sucesso e a “derrota”, e como esses dois momentos deixaram um legado indelével para a humanidade. Muitos observadores alegaram, na época da estréia do filme no Festival de Cannes de 2008, que faltou ao longa registrar com mais detalhes o período de Guevara como integrante do governo revolucionário em Cuba. É uma crítica relevante, já que momentos deixados de fora ajudariam a contextualizar mais as características pessoais e as especificidades de caráter de Che.

Os dois principais responsáveis pela qualidade de “Che” são Benício Del Toro (numa interpretação iluminada, em que consegue recriar um personagem tão cultuado em suas múltiplas camadas com uma atuação contida e ao mesmo tempo passional) e, principalmente, o diretor Steven Soderbergh. O cineasta contextualiza muito bem, por meio das imagens, as ações e os sentimentos envolvidos. Usa com segurança os efeitos trêmulos da câmera na mão, fecha os ângulos em seus personagens e compõe planos abertos em que explora a relação de suas figuras dramáticas com o espaço das ações. Da mis-en-scene, Soderbergh extrai tensão e dramaticidade. O diretor mostra domínio na condução da narrativa, usando elementos clássicos de construção dramatúrgica sem se deixar contaminar por academicismos ou vícios.

O Che Guevara que vemos na tela é um homem de fortes princípios e rigoroso senso ético. Um revolucionário autêntico e sincero, que age o tempo todo de acordo com seus códigos e valores nobre, pensando sempre na tomada do poder das mãos das elites reacionárias para entregá-lo ao povo. É um homem que se revolta com o sofrimento e a falta de condições mínimas com que os pobres do mundo são obrigados a conviver. Essa revolta é sincera e é refletida na própria sinceridade do longa. Che defende com convicção que a única forma para se processar essa troca de poder é por meio da luta armada e não recusa a necessidade de tomar atitudes rigorosas e implacáveis para alcançar a vitória revolucionária. A coerência entre suas ações e pensamentos é constante, e o acompanha desde os combates até seus discursos nas Nações Unidas.

Em “Che - O Argentino” vemos a gestação da revolução e os conflitos internos entre as vária correntes progressistas envolvidas na luta pelo poder. A consolidação de Fidel como líder máximo do processo revolucionário remete a um dos principais temas do marxismo no século passado: a necessidade do agrupamento das forças socialistas em torno de um grupo sólido de liderança que passa a ser o núcleo das ações e o principal aglutinador das massas (um dos elementos centrais do leninismo). Sem didatismo e com precisão de registro e montagem, o filme de Soderbergh recria essas tensões ampliando o espectro da discussão ao intercalar as ações em Cuba com a passagem de Che por Nova Iorque em 1964. Filmada em preto e branco e com imagens em textura granulada, os discursos e a ênfase da retórica de Guevara em solo estadunidense dialogam diretamente com as imagens da revolução. É a dialética entre ação e teoria, tão fundamental para qualquer processo revolucionário.

Os meses passados pelos guerrilheiros em Sierra Maestra são retratados com vigor por Soderbergh, que destila as emoções e os conflitos que afloram durante este período. Vemos Che, Fidel, Raul e seus companheiros na intimidade, passando por dificuldades e superando uma fragilidade que faria com que muitos abandonassem as ações. Como pano de fundo, o filme expõe as mazelas e as condições subumanas de miséria em que viviam a grande maioria dos habitantes de Cuba. As analogias entre a situação dos cubanos (analfabetismo, falta de atendimento médico e exclusão das riquezas produzidas pelo país) com o cotidiano dos outros povos latino-americanos também fazem parte do filme. Che é retratado em seu aspecto comum, o foco é sobre suas características humanas; o bom e velho “homem por trás do mito”.

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