GRAN TORINO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Chee Thao
Duração: 116 min.
Estréia: 20/03/2009
Ano: 2008


Belo e emocionante como poucos


Autor: Cid Nader

Vou fazer o texto sobre esse filme tentando pensar nele como um dos últimos trabalhos de um dos maiores diretores norte-americanos (provavelmente o melhor dos últimos anos). A impressão que Gran Torino passa é a de que estamos diante de um Clint Eastwood quase derradeiro como ator. Parece que ele andou “ameaçando” fazer desse, seu último trabalho como protagonista - fato desmentido em entrevista bem recente que li dele, na qual, entretanto, dizia também perceber com clareza o quão raro vai ficando a possibilidade de um ator de 78 anos conseguir papéis críveis dentro da indústria. De qualquer maneira, ver esse filme remete a um trabalho de resquícios, de recordações: parecia-me, conforme a fita avançava, que um relicário de tipos e situações eastwoodianas formava na tela uma obra repletas de signos inconfundíveis.

Se fosse para fazer avaliações, no momento da exibição do filme, pensando em elementos e possibilidades maiores de modos de confecção de um trabalho na arte, poderia imaginar a figura ranheta de Walt Kowalski, (o americano racista, descendente de poloneses, interpretado por Clint) como um clichê de sujeito mal humorado. Se fosse para pensar em algumas soluções vitais, ações cotidianas, reações a provocações, resolvidas ao melhor modo “velho caubói” com que são resolvidas pelo personagem que detesta seus vizinhos chineses (que abundam em seu bairro, em Michigan, e que fazem dele o único de olhos arredondados que ainda resiste em continuar morando por lá), e que ainda por cima tem sempre uma bandeira americana hasteada no jardim bem cuidado, poderiam até parecer risíveis pelos resultados obtidos. As anteposições familiares (os jeitos e trejeitos de seus e netos e filhos omissos, e suas reações a eles); o início da aparição do padre católico, Janovich (finamente interpretado por Cristopher Carley), tentando fazer com que ele, um velho chato e meio contrário ás beatices – apesar de se perceber ter amado muito a esposa, extremamente religiosa – se confessasse e passasse a participar um pouco mais das coisas da igreja, aparenta coisa imaginada para o confronto ideal e fácil de idéias; os grupos e gangues locais, bastante estilizados, desenhados, e conformados de tal maneira que não sobrasse nenhum tipo de suspeita da origem de cada um e respectivas intenções ante a vida e ao gosto musical; as reações de seus vizinhos chineses durante todos os encontros familiares, seu modo de vida mais descuidado (jardins das casas de ex-amigos largados e sujos), e o modo como reagiam às suas estocadas: todo um amontoado de criações para o filme – aquelas que perfazem estrutura visível condutora das tramas e das intenções interiores de algum diretor – que, vistos por olhos preguiçosos ou “mal intencionados”, fariam pressupor um filme comum se desenhando na tela, e desconcentrariam alguns (não eu, garanto) sobre as possibilidades mil que poderiam surgir, ou que já se insinuavam, desde o início. Sabedor que sou se tratar da obra de um gênio inquestionável, olhar e mente atenta, as certezas foram se desenvolvendo, e nenhuma surpresa negativa fincou raiz: e me emocionei como há tempos não me emocionava.

Quando inicia o filme na tela, rever a cara vincada de um Eastwood cada vez mais envelhecido, remexe com locais na memória que regozija ante a expectativa de prazer puro por vir. Ele já está instalado em nosso imaginário cinéfilo como um signo inesquecível e de reação automática: muito fruto de seus velhos tempos de caubói de cara jovem e vincada (incrível como a velhice não apagou esses seus traços que parecem clamar por justiça a todo custo), muito, também, pela sequência de obras inesquecíveis, na função de diretor, numa sucessão sem escorregões fatais já há cerca de vinte anos. Sabe-se que se irá ver uma obra com assinatura e que terá o que dizer. Estão lá seus motes, seus vícios, suas sacadas, suas observações e conclusões. A câmera que sempre transita pelas cenas como se fosse um objeto que está lá para embelezar o que observa (é leve mas não restrita: sem solavancos desnecessários, desnuda todos os ambientes, sempre cumprindo o papel - vital quando se pensa em cinema – de um dos modos de narração), recria ambientes do diretor, com certezas de ângulos a serem filmados já desde sempre, e com o auxílio da luz sempre correta (um outro fator marcante de seus trabalhos, que têm conseguido revelar cores e recantos, com brilhos tênues).

Aquela história dele de começar seus últimos filmes com um dedilhar de piano, ou com a repetição ou similarização de um mesmo tema musical, que antecipa trilhas que jamais ultrapassarão suas fronteiras para dominar espaços a mais, acaba por antecipar momentos sonoros dos mais belos dos últimos tempos (e note-se que ele é um diretor que tem entre suas marcas belas músicas e trilhas). Conforme música e imagens vão contando o filme, vai também falando de alguém ultra-patriota (tema recorrente em sua carreira), que um dia lutou na guerra (a da Coréia), e que nutre um xenofobismo quase intragável (ainda mais com um monte de gente de olhos puxados invadindo seu espaço pátrio/lar. A ligação de Kowalski (inevitável pela ocupação de espaços tão contíguos) com esses seus indesejados vizinhos chineses, vai ganhando razões de interação durante a sucessão de fatos. A aproximação dos jovens irmãos que acaba ocorrendo junto a ele (acontecida por um daqueles episódios que poderiam parecer clichesísticos nas mãos e cabeça de um impuro qualquer) – ela Sue (Ahney Her), e ele, Thao (Bee Vang) – começa um processo de apaziguamento interior, de onde se perceberá uma real não identificação com os seus de sangue, e ideais particulares corretos que vão além da ranzinzice aparente (ele chega a grunhir durante o filme), podendo desarmar carapaças antigas. Inclusive passando a saber que eles não são chinas, mas imigrantes hmong, do Laos.

A sua relação com o padre chega a parecer um mistério que vem constituindo-se, também, um signo repetido: Clint é anglicano assumido, mas tem utilizado alguns de seus filmes para confrontar-se com padres católicos, sendo que daí jamais restou agressão ou incompreensão, somente questionamentos bastante pertinentes (sempre válido relembrar que sua defesa eterna de alguns valores próprios a uma “pátria pura” e justa na gênese, inclui perceber a religião agindo como braço amparador, forte, e necessário, sem excessos de misticismo ou carolices gratuitas). Na realidade, o que se passará durante o transcorrer do filme será a cooptação total dos que gostam de cinema de verdade; dos que nutrem veneração pelo velho caubói. Gran Torino não tem medo de beirar situações estranhas, pois é trabalho feito por quem quer contar um algo mais; por quem quer fechar um tanto mais uma carreira que entregou similaridades, com a intenção de manter um continuísmo que autentique uma obra totalmente autoral. É belo e emocionante como poucos: basta deixá-lo entrar.

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